Arábia Saudita - Grupo H
🇸🇦🔥 Arábia Saudita, o deserto que aprende a sofrer e a golpear
Uma seleção que alterna noites de controle e tardes de faca nos dentes, com a bola curta como escudo e o placar mínimo como território
Introdução
Há seleções que se explicam pelo brilho; outras, pelo hábito de sobreviver. A Arábia Saudita, nesse ciclo, parece ter escolhido a segunda via: não é uma história de fogos constantes, e sim de fósforos acesos no momento exato. O caminho não foi linear, nem romântico. Foi competitivo, duro, às vezes irritante. E, justamente por isso, revelador.
Os resultados desenham uma equipe capaz de vestir dois trajes na mesma semana: o do time que manda no jogo e empilha minutos no campo rival, e o do time que aceita o incômodo, fecha a cara e arranca pontos como quem arranca água de pedra. Em casa, por vezes, a ansiedade pesa; fora, frequentemente, a Arábia Saudita vira um visitante desconfortável, que não dá o gol de presente e costuma esticar o jogo até a última curva.
Quando a campanha pede memória em vez de adjetivos, três cenas funcionam como dobradiças. A primeira é uma abertura de impacto: em 16 de novembro de 2023, 4:0 sobre o Paquistão, com Al-Shehri marcando cedo e voltando a aparecer de pênalti, e o placar ganhando corpo nos acréscimos. A segunda é um recado fora de casa: em 21 de novembro de 2023, 2:0 na Jordânia, com dois gols de Al-Shehri antes da meia hora — uma vitória que cheira a time que sabe o que quer. A terceira é um lembrete do preço dos detalhes: em 11 de junho de 2024, derrota por 1:2 para a Jordânia em Riade, depois de sair na frente com Lajami, mas sofrer a virada ainda no primeiro tempo.
Se a gente “aterra” nos números, o retrato fica mais nítido. Na Segunda rodada do Grupo G, a Arábia Saudita terminou com 13 pontos em 6 jogos, com 4 vitórias, 1 empate e 1 derrota, 12 gols a favor e 3 contra, saldo +9. Na Terceira rodada do Grupo C, o quadro foi mais áspero: 13 pontos em 10 jogos, com 3 vitórias, 4 empates e 3 derrotas, apenas 7 gols marcados e 8 sofridos, saldo -1. Já na Quarta rodada do Grupo B, a largada foi competitiva: 4 pontos em 2 partidas, invicta, 3 gols feitos e 2 sofridos.
Essa seleção, portanto, não se resume a “ataca bem” ou “defende bem”. Ela oscila entre a vontade de controlar e a necessidade de resistir. E o interessante é que, quando é obrigada a sobreviver, quase sempre encontra uma saída: um gol de bola parada, um ataque em poucos toques, um jogo em que o 0:0 vira argumento. Esse ciclo foi, acima de tudo, uma aprendizagem do placar curto.
O caminho pelas Eliminatórias
O percurso da Arábia Saudita atravessa fases bem diferentes, e o próprio desenho das tabelas conta essa mudança de paisagem. Na Segunda rodada, o cenário era de grupo mais previsível: jogos para pontuar, margem para impor ritmo, obrigação de não tropeçar contra quem oferece menos resistência. Na Terceira rodada, o funil apertou: confrontos diretos, jogos mais físicos, mais momentos de “um gol decide”, e a sensação de que um empate pode ser tanto um prêmio quanto uma perda. Na Quarta rodada, a história volta a ser de sobrevivência: poucos jogos, tudo valendo muito, detalhes virando moeda.
Antes de qualquer interpretação emocional, vale olhar a fotografia da Segunda rodada no Grupo G: a Arábia Saudita fez 13 pontos, mesma pontuação da Jordânia, mas ficou atrás no critério de posição (Jordânia em 1º, Arábia Saudita em 2º). O ataque foi eficiente (12 gols em 6 jogos), e a defesa, sólida (3 sofridos). Nesse estágio, o time conseguiu alternar goleadas com vitórias de controle, sem se desorganizar. O 4:0 no Paquistão, por exemplo, foi um jogo de placar “quase didático”: gol cedo, administração, e golpe final nos acréscimos para carimbar superioridade.
O salto para a Terceira rodada no Grupo C muda o vocabulário. O time termina em 3º com 13 pontos, atrás de Japão (23) e Austrália (19), e à frente de Indonésia (12), China (9) e Barém (6). A Arábia Saudita marca só 7 gols em 10 jogos — menos de 1 por partida — e ainda assim não desaba defensivamente (8 sofridos). É uma campanha de margens estreitas: muito 0:0, muito 1:0, e derrotas que doem porque não são desmoronamentos, são cortes pequenos que sangram o mesmo.
E aqui aparece um ponto-chave de leitura: a Arábia Saudita não se classificou nessa fase pelo volume de vitórias, mas pela capacidade de não virar peneira. Em um grupo em que o Japão terminou com 30 gols marcados e apenas 3 sofridos, o contraste revela o que a Arábia Saudita foi: um time de baixa produção ofensiva, mas também de baixa concessão. O problema é que, em jogos grandes, isso nem sempre basta. A derrota em casa para o Japão por 0-2 em 10 de outubro de 2024 é um exemplo: não foi um desastre, foi uma partida em que o adversário achou dois golpes (um cedo, outro no fim) e tirou o oxigênio do plano saudita.
Quando a Quarta rodada começa, a Arábia Saudita aparece em um Grupo B curtíssimo e tenso: 4 pontos em 2 jogos, empatada com o Iraque, mas à frente no critério de gols a favor (3 contra 1), com a mesma diferença de gols (+1). A vitória por 3:2 fora contra a Indonésia, em 8 de outubro de 2025, é um daqueles jogos que resumem o ciclo: sofreu cedo, respondeu, e no fim encontrou potência para levar a partida. Depois, em 14 de outubro de 2025, o 0:0 em casa contra o Iraque reafirma uma identidade: quando não dá para ganhar, a Arábia Saudita sabe, ao menos, não perder.
A seguir, a campanha completa do time, jogo a jogo, para que a narrativa não dependa de memória seletiva.
Tabela 1 — Partidas da Arábia Saudita
| Data | Fase | Grupo | Jornada | Adversário | Condição | Resultado | Artilheiros | Sede |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 16 de novembro de 2023 | Segunda rodada | G | Paquistão | Casa | 4:0 | Al-Shehri 6', 48' pen.; Ghareeb 90+1'; Radif 90+6' | Estádio Príncipe Mohamed bin Fahd, Dammam | |
| 21 de novembro de 2023 | Segunda rodada | G | Jordânia | Fora | 2:0 | Al-Shehri 8', 30' | Estádio Internacional, Amán | |
| 21 de março de 2024 | Segunda rodada | G | Tadjiquistão | Casa | 1:0 | S. Al-Dawsari 23' | Estádio KSU, Riad | |
| 26 de março de 2024 | Segunda rodada | G | Tadjiquistão | Fora | 1:1 | Al-Buraikan 46' | Estádio Pamir, Dusambé | |
| 6 de junho de 2024 | Segunda rodada | G | Paquistão | Fora | 3:0 | Al-Buraikan 26', 41'; Al-Juwayr 59' | Estádio Jinnah Sports, Islamabad | |
| 11 de junho de 2024 | Segunda rodada | G | Jordânia | Casa | 1:2 | Lajami 16' | Estádio KSU, Riad | |
| 5 de setembro de 2024 | Terceira rodada | C | 1 | Indonésia | Casa | 1-1 | Al-Juwayr 45+3' | Cidade Desportiva do Rei Abdalá, Yeda |
| 10 de setembro de 2024 | Terceira rodada | C | 2 | China | Fora | 2-1 | Kadesh 39', 90' | Dalian Suoyuwan Football Stadium, Dalian |
| 10 de outubro de 2024 | Terceira rodada | C | 3 | Japão | Casa | 0-2 | Cidade Desportiva do Rei Abdalá, Yeda | |
| 15 de outubro de 2024 | Terceira rodada | C | 4 | Barém | Casa | 0-0 | Cidade Desportiva do Rei Abdalá, Yeda | |
| 14 de novembro de 2024 | Terceira rodada | C | 5 | Austrália | Fora | 0-0 | Estádio Rectangular, Melbourne | |
| 19 de novembro de 2024 | Terceira rodada | C | 6 | Indonésia | Fora | 0-2 | Estádio Gelora Bung Karno, Yakarta | |
| 20 de março de 2025 | Terceira rodada | C | 7 | China | Casa | 1-0 | S. Al-Dawsari 50' | Estádio da Universidade Rei Saúd, Riad |
| 25 de março de 2025 | Terceira rodada | C | 8 | Japão | Fora | 0-0 | Estádio Saitama 2002, Saitama | |
| 5 de junho de 2025 | Terceira rodada | C | 9 | Barém | Fora | 2-0 | Al-Juwayr 16'; Al-Aboud 78' | Estádio Nacional, Riffa |
| 10 de junho de 2025 | Terceira rodada | C | 10 | Austrália | Casa | 1-2 | Al-Aboud 19' | Cidade Desportiva do Rei Abdalá, Yeda |
| 8 de outubro de 2025 | Quarta ronda | B | Indonésia | Fora | 3:2 | Saleh Aboulshamat; Firas Al-Buraikan 2 | ||
| 14 de outubro de 2025 | Quarta ronda | B | Iraque | Casa | 0:0 |
Agora, as tabelas de posições, completas e na ordem em que aparecem, porque o contexto muda conforme a fase. E, no caso saudita, muda muito: o time é um na Segunda rodada, outro na Terceira, e uma nova versão na Quarta.
Tabela 2 — Segunda rodada Grupo G
| Pos. | Equipe | Pts. | PJ | G | E | P | GF | GC | Dif. |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Jordânia | 13 | 6 | 4 | 1 | 1 | 16 | 4 | +12 |
| 2 | Arábia Saudita | 13 | 6 | 4 | 1 | 1 | 12 | 3 | +9 |
| 3 | Tadjiquistão | 8 | 6 | 2 | 2 | 2 | 11 | 7 | +4 |
| 4 | Paquistão | 0 | 6 | 0 | 0 | 6 | 1 | 26 | -25 |
Tabela 3 — Terceira rodada Grupo C
| Pos. | Equipe | Pts. | PJ | G | E | P | GF | GC | Dif. |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Japão | 23 | 10 | 7 | 2 | 1 | 30 | 3 | +27 |
| 2 | Austrália | 19 | 10 | 5 | 4 | 1 | 16 | 7 | +9 |
| 3 | Arábia Saudita | 13 | 10 | 3 | 4 | 3 | 7 | 8 | -1 |
| 4 | Indonésia | 12 | 10 | 3 | 3 | 4 | 9 | 20 | -11 |
| 5 | China | 9 | 10 | 3 | 0 | 7 | 7 | 20 | -13 |
| 6 | Barém | 6 | 10 | 1 | 3 | 6 | 5 | 16 | -11 |
Tabela 4 — Quarta ronda Grupo B
| Pos. | Equipe | Pts. | PJ | G | E | P | GF | GC | Dif. |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Arábia Saudita | 4 | 2 | 1 | 1 | 0 | 3 | 2 | +1 |
| 2 | Iraque | 4 | 2 | 1 | 1 | 0 | 1 | 0 | +1 |
| 3 | Indonésia | 0 | 2 | 0 | 0 | 2 | 2 | 4 | -2 |
A leitura comparativa ajuda a entender por que a Arábia Saudita foi “compacta” na Terceira rodada: marcou os mesmos 7 gols que a China, mas sofreu bem menos (8 contra 20). Isso a manteve viva na tabela, embora o ataque não tenha acompanhado. Em pontos, ficou só um acima da Indonésia (13 contra 12), o que reforça o quanto cada empate e cada 1:0 teve valor de ouro.
E quando a gente fragmenta por mando de campo, aparece um padrão curioso. Na Terceira rodada, em casa, a Arábia Saudita teve oscilações: empatou 1-1 com a Indonésia, perdeu 0-2 para o Japão, empatou 0-0 com o Barém, venceu 1-0 a China e perdeu 1-2 para a Austrália. Fora, o time foi mais “pontuável”: venceu a China por 2-1, empatou 0-0 com a Austrália, perdeu 0-2 para a Indonésia, empatou 0-0 com o Japão e venceu o Barém por 2-0. Não é um visitante brilhante em gols, mas é um visitante que sabe reduzir o jogo, tornar o ambiente pesado e fazer o adversário trabalhar por cada vantagem.
Outra segmentação que conta história é a do placar mínimo. Na lista completa de partidas do ciclo fornecida, há uma coleção de jogos em que a Arábia Saudita decidiu tudo por um detalhe: 1-0 sobre o Tadjiquistão (21 de março de 2024), 1-0 sobre a China (20 de março de 2025), 2-1 fora contra a China (10 de setembro de 2024), 2-0 fora contra o Barém (5 de junho de 2025). E há também empates sem gols que parecem repetição, mas são assinatura: 0-0 com o Barém, 0-0 com a Austrália, 0-0 com o Japão, 0-0 com o Iraque. Isso não é coincidência: é um estilo que se sente confortável em jogos de pouca troca de socos.
Por fim, os momentos em que a Arábia Saudita perde também são reveladores: o 0-2 para o Japão em casa; o 0-2 fora para a Indonésia; o 1-2 em casa para a Austrália; e o 1-2 em casa para a Jordânia. Em todas essas derrotas, o problema central não é “levar muitos gols” — é não conseguir virar o roteiro quando sofre o primeiro ou quando o adversário trava a circulação. A Arábia Saudita, nesse ciclo, foi mais competente para manter uma vantagem do que para persegui-la.
Como joga
A Arábia Saudita desta campanha tem uma identidade que nasce de números simples: na Terceira rodada, fez 7 gols em 10 jogos e sofreu 8. Isso empurra o time para um futebol de controle emocional e placar curto, em que o 0:0 não é vergonha, é parte do plano. A equipe parece construída para não se partir no meio: aceita jogos amarrados, alterna posse com prudência e tenta que o adversário se exponha antes.
Quando o jogo abre, a Arábia Saudita costuma responder com poucos toques e finalização rápida, sem necessariamente depender de um volume enorme. O exemplo mais claro, nesse conjunto de dados, é a vitória fora contra o Barém por 2-0 (5 de junho de 2025): dois gols em um jogo em que a prioridade parece ter sido não conceder. E o 2-1 fora contra a China (10 de setembro de 2024), decidido com gol aos 90', sugere uma equipe que não abandona o jogo — ela estica o roteiro até o fim e aposta no momento.
Há também um traço de eficácia seletiva: a Arábia Saudita consegue produzir picos de ataque em contextos específicos. Na Segunda rodada, contra o Paquistão, fez 4:0 em casa e 3:0 fora, com Al-Buraikan, Al-Juwayr, Ghareeb e Radif entrando na conta. Isso indica que, quando o nível do adversário permite, o time tem repertório de finalização e nomes para distribuir gols, não ficando preso a um único marcador.
Mesmo assim, no recorte dos jogos mais duros, a produção ofensiva cai e a dependência de “momentos” aumenta. O time marcou 0 gols em quatro partidas da Terceira rodada (0-2 Japão; 0-0 Barém; 0-0 Austrália; 0-0 Japão) e passou em branco também na derrota por 0-2 fora para a Indonésia. Ou seja: em metade das partidas dessa fase (5 de 10), não marcou. Isso não é detalhe; é a fronteira que separa um time competitivo de um time que precisa sofrer demais.
A distribuição dos gols também oferece pistas. Al-Juwayr aparece em momentos distintos (gol contra a Indonésia em 5 de setembro de 2024; gol no 3-0 fora contra o Paquistão; gol contra o Barém), S. Al-Dawsari surge como finalizador de jogos fechados (1-0 contra Tadjiquistão; 1-0 contra China), e Al-Buraikan é figura recorrente na fase anterior e volta a aparecer forte na vitória por 3:2 fora contra a Indonésia na Quarta ronda, com dois gols. Não dá para desenhar um sistema tático só com isso — e nem é o objetivo —, mas dá para concluir que os gols tendem a nascer de protagonistas pontuais em noites específicas, mais do que de uma máquina constante.
As vulnerabilidades, por sua vez, são quase todas “de cenário”. Em casa, quando precisa impor, a Arábia Saudita oscilou: 1-1 com Indonésia, 0-2 com Japão, 0-0 com Barém, 1-2 com Austrália. Em jogos em que o rival consegue aguentar o primeiro impacto e esfriar a atmosfera, o time pode ficar preso em uma partida de pouca criação. E quando sai atrás cedo — como na vitória por 3:2 fora contra a Indonésia, que começou com gol aos 2' do adversário —, a reação existe, mas custa energia e expõe a defesa a transições.
Ainda assim, a principal virtude é clara: competitividade em jogos de alta fricção. Empatar 0-0 fora com Austrália e Japão, e depois repetir 0-0 em casa com o Iraque, é um sinal de disciplina de partida. A Arábia Saudita sabe que, em futebol de seleções, nem toda noite pede espetáculo. Algumas pedem sobrevivência. E ela aprendeu a sobreviver sem perder o rosto.
O grupo no Mundial
O Mundial coloca a Arábia Saudita no Grupo H, com três jogos que têm cara de roteiro cinematográfico, daqueles em que o protagonista precisa passar por três portas diferentes: uma de pressão física e de duelo, outra de controle e paciência, e uma terceira em que a obrigação moral costuma recair sobre quem carrega mais nome.
A sequência é a seguinte: estreia contra o Uruguai em 15 de junho de 2026, depois enfrenta a Espanha em 21 de junho de 2026, e fecha contra Cabo Verde em 26 de junho de 2026. Três estilos, três ambientes, três cidades: Miami, Atlanta e Houston. A logística é parte do campeonato, mas o que decide é o que acontece nos primeiros 15 minutos de cada jogo — e a Arábia Saudita, pelos próprios dados do ciclo, é uma seleção que costuma viver bem nesses primeiros 15 quando consegue manter a partida no 0:0.
Tabela — Jogos da fase de grupos
| Data | Estádio | Cidade | Rival |
|---|---|---|---|
| 15 de junho de 2026 | Hard Rock Stadium | Miami | Uruguai |
| 21 de junho de 2026 | Mercedes-Benz Stadium | Atlanta | Espanha |
| 26 de junho de 2026 | NRG Stadium | Houston | Cabo Verde |
Contra o Uruguai, o guião mais provável, olhando para a personalidade saudita de placar curto, passa por “segurar o início”. A Arábia Saudita tem repertório de jogo travado: os 0-0 fora com Austrália e Japão mostram que ela sabe atravessar minutos de pressão sem entrar em pânico. O que ela não pode é transformar o jogo em ida e volta permanente, porque, nesse ciclo, seus melhores resultados vieram quando o jogo teve poucos gols e poucos “momentos loucos”. Prognóstico: ganha Uruguai.
Contra a Espanha, a partida tende a exigir outra coragem: a coragem de atacar pouco, mas atacar bem. A Arábia Saudita não é um time que, nessa amostra, produza muitos gols em sequência; por isso, a qualidade das poucas chances será determinante. Em jogos grandes, ela já mostrou que consegue, ao menos, não conceder fácil: o 0-0 fora com o Japão é um argumento. Mas também mostrou que, em casa, pode ser punida por dois golpes (0-2 para o Japão). Uma seleção como a Espanha tende a castigar distrações de posicionamento e faltas perto da área, e a Arábia Saudita vai precisar de um jogo “limpo”, sem oferecer segundas bolas. Prognóstico: ganha Espanha.
Contra Cabo Verde, o texto muda. Não por desmerecer o adversário, e sim porque, nesse tipo de jogo, o peso da iniciativa costuma cair para o lado que precisa do resultado. Se a Arábia Saudita chegar viva à terceira rodada, este jogo pode ser o tipo de partida que ela já enfrentou muitas vezes nas eliminatórias: obrigação de construir sem se abrir. A vantagem é que o time tem vitórias de administração: 1-0 contra China e Tadjiquistão, 2-0 fora contra Barém. A armadilha é a ansiedade: em casa, quando teve de impor, nem sempre conseguiu. Em campo neutro de Copa, a gestão emocional vira o “décimo segundo jogador”. Prognóstico: ganha Arábia Saudita.
Há, portanto, um caminho possível: somar pontos sem se apaixonar por posse, sem se desesperar por volume, e aceitando que alguns jogos serão de poucas finalizações. A Arábia Saudita não precisa ser a equipe mais bonita do grupo; precisa ser a mais consistente no seu próprio plano.
Chaves para avançar no Grupo H
- Transformar a estreia em um jogo de placar curto, sem sofrer gol cedo.
- Ser eficiente nas poucas chegadas: um gol pode valer ouro em jogos desse perfil.
- Manter a consistência defensiva que apareceu nos 0-0 fora contra adversários fortes.
- Evitar “quebrar” mentalmente após sair atrás, algo que pesou em derrotas como o 0-2 fora contra a Indonésia e o 1-2 contra a Austrália.
- Chegar à terceira rodada com margem: mesmo um ponto conquistado em um dos dois primeiros jogos muda o tamanho da pressão contra Cabo Verde.
Opinião editorial
A Arábia Saudita chega com uma virtude que muita seleção subestima: ela sabe jogar o jogo que o adversário detesta. Sabe amarrar, sabe atrasar a recompensa do outro, sabe fazer uma partida parecer longa. Em ciclo de Copa, isso vale mais do que frases prontas sobre “protagonismo”. O problema é que, quando precisa ser protagonista, às vezes falta a segunda camada: criar mais do que um punhado de chances, e criar sem se expor.
Se eu tivesse que resumir o risco em uma cena, eu voltaria à derrota por 1-2 para a Austrália em 10 de junho de 2025: marcou cedo, mas não conseguiu segurar o roteiro e sofreu dois golpes antes de a partida escapar. Copa do Mundo não perdoa esse tipo de oscilação em cinco minutos. A Arábia Saudita tem ferramentas para competir; a pergunta é se terá a frieza para não se trair quando o jogo pedir paciência — e quando pedir coragem para morder, mesmo com pouco espaço.
No fim, a Arábia Saudita não parece a seleção que promete tempestade; parece a que prefere o vento constante. E, em torneio curto, vento constante costuma derrubar muita gente que chega com fogos demais e controle de menos. A advertência, porém, é simples e concreta: se o time repetir a desconcentração que permitiu a virada da Jordânia em 11 de junho de 2024, ou a queda de controle contra a Austrália em 10 de junho de 2025, qualquer plano de placar curto vira castelo de areia. E castelo de areia, todo mundo sabe, é bonito — até a primeira onda.