Uruguai - Grupo H
🇺🇾🔥 La Celeste afia as garras e vai ao Mundial com a faca nos dentes
Uma campanha de classificação com picos de impacto, um miolo de empates e um sprint final que recoloca o Uruguai no mapa do medo competitivo.
Introdução
O Uruguai tem um jeito particular de anunciar presença: não precisa fazer barulho o tempo todo, mas quando decide bater na porta, bate com o ombro. Há campanhas que se contam por números; a desta Celeste se conta por cenas. A bola que entra cedo e muda o humor do Centenário. O jogo grande em que o adversário olha para o banco e percebe que não vai ter trégua. E também aquela sequência em que o relógio anda, o placar não, e a seleção parece travada num empate que vira rotina.
A caminhada nas Eliminatórias sul-americanas foi uma narrativa de contrastes. Começa com a sensação de novidade e fome — o 3 a 1 sobre o Chile em Montevidéu (8 de setembro de 2023) e, principalmente, com a noite em que o Brasil saiu do Centenário sem resposta: 2 a 0 (17 de outubro de 2023), com gols e assinatura emocional. Na sequência, o roteiro ganhou um tom mais áspero, de rodagem e testes, onde cada centímetro custou caro: empates sem gols, derrotas mínimas e jogos que pareciam pedir uma faísca que nem sempre apareceu.
Quando se aterrissa nos dados, o retrato é objetivo: o Uruguai terminou em 4º lugar, com 28 pontos em 18 jogos, somando 7 vitórias, 7 empates e 4 derrotas. Fez 22 gols e sofreu 12, saldo +10. Há solidez, há competitividade, e há uma pista central: é uma seleção que, mesmo nos dias de pouco brilho, costuma manter o jogo sob controle defensivo. O problema é que controle sem profundidade vira empate; e empate, na maratona, vira uma pergunta incômoda.
Três momentos-bisagra ajudam a entender a campanha sem recorrer a mitos. O primeiro é a vitória sobre o Brasil em 17 de outubro de 2023 (2 a 0), um marco psicológico e de tabela. O segundo é o golpe cirúrgico em Buenos Aires: Argentina 0 x 2 Uruguai em 16 de novembro de 2023, com a Celeste mostrando que sabe jogar o “jogo do outro” sem perder o próprio pulso. O terceiro é o 3 a 2 sobre a Colômbia em 15 de novembro de 2024, uma partida que teve cara de montanha-russa e terminou com um gol no 90+11’, desses que não somam apenas pontos: somam crença.
Há também o lado B que explica o que ainda incomoda. Entre setembro e outubro de 2024, o Uruguai acumulou empates sem gols e uma derrota curta (Peru 1 a 0 em 11 de outubro de 2024), como se a seleção tivesse ficado presa numa versão mais econômica de si mesma: segura, sim, mas com pouco veneno. E, quando a fase final apertou, ainda houve um tropeço duro em Assunção (Paraguai 2 a 0, 5 de junho de 2025), imediatamente respondido com autoridade em Montevidéu contra a Venezuela (2 a 0, 10 de junho de 2025) e um 3 a 0 sobre o Peru (4 de setembro de 2025) que serviu como recomeço emocional.
O que fica, portanto, é uma Celeste com cara de torneio: sabe sofrer, sabe bater em gigante, e tem uma taxa de gols sofridos que sustenta qualquer ambição. Mas, para virar seleção de “mando” e não apenas de “jogo grande”, precisa transformar estabilidade em vantagem. A diferença, muitas vezes, é um gol — e o Uruguai viveu vários jogos onde esse gol não veio.
O caminho pelas Eliminatórias
As Eliminatórias da CONMEBOL são uma liga longa, de turno e returno, em que cada ponto vale como metal raro. O Uruguai encarou 18 partidas, alternando o Centenário como alavanca e viagens que, na América do Sul, são sempre provas físicas e mentais. O resultado final — 4º lugar com 28 pontos — diz que a classificação veio com margem competitiva, mas também revela um detalhe: houve um bloco inteiro de jogos em que a equipe não perdeu muito… e também não ganhou o suficiente.
A leitura da tabela ajuda a posicionar a campanha no mapa da região. O Uruguai fechou com 28 pontos, empatado em pontuação com Colômbia, Brasil e Paraguai, mas à frente por critérios de desempate e consistência do saldo. Ficou a 10 pontos da Argentina, líder com 38, e um ponto atrás do Equador, vice com 29. É uma fotografia de equilíbrio extremo: quatro seleções separadas por detalhes disputaram o “segundo pelotão” do topo, e o Uruguai saiu dele com credenciais defensivas (12 gols sofridos) e um ataque que alternou entre noites inspiradas e longos períodos de baixa produção.
Se a campanha tivesse um desenho em ondas, a primeira onda é de impacto. Logo na Jornada 1, 3 a 1 sobre o Chile em 8 de setembro de 2023, com dois gols de Nicolás de la Cruz e um de Valverde: a mensagem foi clara, de intensidade e volume. Na Jornada 4, o 2 a 0 sobre o Brasil (17 de outubro de 2023) fez o Centenário parecer menor de tão concentrado que ficou o jogo. E a Jornada 5, em Buenos Aires, foi um manifesto competitivo: Argentina 0 x 2 Uruguai (16 de novembro de 2023), um placar que raramente se desenha fora de casa sem um plano bem executado.
Depois vem a segunda onda, mais irregular, que mistura empates e jogos de margem mínima. A Jornada 7 e a Jornada 8 foram dois 0 a 0 seguidos (Paraguai em Montevidéu e Venezuela em Maturín), sinal de um time que controlava o risco, mas não convertia domínio em gol. Na Jornada 9, a derrota por 1 a 0 para o Peru em Lima (11 de outubro de 2024) doeu por ser o tipo de jogo em que um detalhe, um lance, uma desconcentração, vira sentença. E o 0 a 0 com o Equador em casa (15 de outubro de 2024) consolidou a sensação de “placar travado” naquele período.
A terceira onda traz de volta a pulsação. O 3 a 2 sobre a Colômbia em 15 de novembro de 2024 não foi apenas vitória: foi resistência emocional. Houve gol contra, virada, empate tardio do adversário no 90+6’, e resposta do Uruguai no 90+11’ com Ugarte. E, poucos dias depois, o 1 a 1 com o Brasil em Salvador (19 de novembro de 2024) reforçou a ideia de que, contra seleção grande, a Celeste costuma encontrar seu melhor tom.
O trecho final é de ajustes finos e um fechamento com autoridade em casa. Em março de 2025, veio uma derrota magra para a Argentina no Centenário (0 a 1, 21 de março de 2025), seguida de 0 a 0 em El Alto contra a Bolívia (25 de março de 2025), um empate que se lê como ponto “duro” fora. Em junho, a derrota em Assunção (Paraguai 2 a 0, 5 de junho de 2025) pareceu um alerta de limite: quando o jogo pede reação, nem sempre ela aparece. Mas a resposta veio em Montevidéu: 2 a 0 sobre a Venezuela (10 de junho de 2025) e, mais adiante, um 3 a 0 sobre o Peru (4 de setembro de 2025), com gols de Aguirre, De Arrascaeta e Viñas, como se a seleção fechasse a porta do debate com um trinco a mais.
Há um dado que atravessa toda a campanha e explica muito do “como”: o Uruguai acumulou 7 empates em 18 jogos, e vários deles foram 0 a 0. Isso pode ser lido como maturidade defensiva, mas também como dificuldade de transformar presença em gol — principalmente fora de casa, onde os 0 a 0 viraram um hábito (Venezuela, Bolívia e Chile, todos sem gols). Ao mesmo tempo, quando conseguiu marcar primeiro e acelerar, a Celeste foi convincente: 3 a 0 na Bolívia? Não: foi 3 a 0 contra a Bolívia em Montevidéu (21 de novembro de 2023). E 3 a 0 contra o Peru também em casa (4 de setembro de 2025). O padrão é claro: no Centenário, o Uruguai encontrou seu melhor futebol de resultado.
Abaixo, a campanha completa jogo a jogo, em formato de leitura rápida, com data, jornada, rival, condição, placar, Artilheiros e sede.
Tabela 1
| Data | Jornada | Rival | Condição | Resultado | Artilheiros | Sede |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 8 de setembro de 2023 | 1 | Chile | Casa | 3:1 | N. de la Cruz 38', 71', Valverde 45+2'; Vidal 74' | Estádio Centenario, Montevideo |
| 12 de setembro de 2023 | 2 | Equador | Fora | 2:1 | Torres 45+5', 61'; Canobbio 38' | Estádio Rodrigo Paz Delgado, Quito |
| 12 de outubro de 2023 | 3 | Colômbia | Fora | 2:2 | Rodríguez 35', Uribe 52'; M. Olivera 47', Núñez 90+1' (pen.) | Estádio Metropolitano, Barranquilla |
| 17 de outubro de 2023 | 4 | Brasil | Casa | 2:0 | Núñez 42', N. de la Cruz 77' | Estádio Centenario, Montevideo |
| 16 de novembro de 2023 | 5 | Argentina | Fora | 0:2 | R. Araújo 41', Núñez 87' | La Bombonera, Buenos Aires |
| 21 de novembro de 2023 | 6 | Bolívia | Casa | 3:0 | Núñez 15', 71', Villamíl 39' (a.g.) | Estádio Centenario, Montevideo |
| 6 de setembro de 2024 | 7 | Paraguai | Casa | 0:0 | Estádio Centenario, Montevideo | |
| 10 de setembro de 2024 | 8 | Venezuela | Fora | 0:0 | Estádio Monumental, Maturín | |
| 11 de outubro de 2024 | 9 | Peru | Fora | 1:0 | Araujo 88' | Estádio Nacional, Lima |
| 15 de outubro de 2024 | 10 | Equador | Casa | 0:0 | Estádio Centenario, Montevideo | |
| 15 de novembro de 2024 | 11 | Colômbia | Casa | 3:2 | D. Sánchez 57' (a.g.), Aguirre 60', Ugarte 90+11'; Quintero 31', Gómez 90+6' | Estádio Centenario, Montevideo |
| 19 de novembro de 2024 | 12 | Brasil | Fora | 1:1 | Gerson 62'; Valverde 55' | Arena Fonte Nova, Salvador |
| 21 de março de 2025 | 13 | Argentina | Casa | 0:1 | Almada 68' | Estádio Centenario, Montevideo |
| 25 de março de 2025 | 14 | Bolívia | Fora | 0:0 | Estádio Municipal, El Alto | |
| 5 de junho de 2025 | 15 | Paraguai | Fora | 2:0 | Galarza 13', Enciso 81' (pen.) | Estádio Defensores del Chaco, Asunción |
| 10 de junho de 2025 | 16 | Venezuela | Casa | 2:0 | Aguirre 42', De Arrascaeta 47' | Estádio Centenario, Montevideo |
| 4 de setembro de 2025 | 17 | Peru | Casa | 3:0 | Aguirre 14', G. de Arrascaeta 56', Viñas 80' | Estádio Centenario, Montevideo |
| 9 de setembro de 2025 | 18 | Chile | Fora | 0:0 | Estádio Nacional, Santiago |
Agora, a tabela de posições completa. Como o JSON traz uma única classificação geral da CONMEBOL, esta é a tabela relevante para contextualizar o 4º lugar do Uruguai.
Tabela de posições
| Pos. | Seleção | Pts. | PJ | PG | PE | PP | GF | GC | Dif. |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Argentina | 38 | 18 | 12 | 2 | 4 | 31 | 10 | 21 |
| 2 | Equador | 29 | 18 | 8 | 8 | 2 | 14 | 5 | 9 |
| 3 | Colômbia | 28 | 18 | 7 | 7 | 4 | 28 | 18 | 10 |
| 4 | Uruguai | 28 | 18 | 7 | 7 | 4 | 22 | 12 | 10 |
| 5 | Brasil | 28 | 18 | 8 | 4 | 6 | 24 | 17 | 7 |
| 6 | Paraguai | 28 | 18 | 7 | 7 | 4 | 14 | 10 | 4 |
| 7 | Bolívia | 20 | 18 | 6 | 2 | 10 | 17 | 35 | -18 |
| 8 | Venezuela | 18 | 18 | 4 | 6 | 8 | 18 | 28 | -10 |
| 9 | Peru | 12 | 18 | 2 | 6 | 10 | 6 | 21 | -15 |
| 10 | Chile | 11 | 18 | 2 | 5 | 11 | 9 | 27 | -18 |
Com a tabela na mão, dá para comparar o Uruguai sem fantasia. Em pontos, ficou no bloco do 3º ao 6º. Em saldo, empatou com a Colômbia (+10) e ficou acima de Brasil (+7) e Paraguai (+4). Em gols sofridos, 12 é número de time “difícil de furar” — só perde para a defesa do Equador (5) e para a Argentina (10). Já o ataque (22) é competitivo, mas não dominante dentro do pelotão: a Colômbia marcou 28 e a Argentina 31; o Brasil fez 24. Em outras palavras: o Uruguai foi mais “controle” do que “tempestade”.
Se segmentar a campanha pelo placar, aparecem dois mundos. Nos jogos em que marcou 2 ou mais gols, o Uruguai venceu: 3 a 1 no Chile, 2 a 0 no Brasil, 0 a 2 na Argentina, 3 a 0 na Bolívia, 3 a 2 na Colômbia, 2 a 0 na Venezuela, 3 a 0 no Peru. É um padrão limpíssimo: quando o ataque funciona, a defesa sustenta. O problema foi o outro conjunto: partidas de um gol ou zero gol. Houve derrotas por 1 a 0 (Peru e Argentina) e uma sequência de 0 a 0 que travou o ganho de pontos.
E a diferença entre casa e fora também salta. Em Montevidéu, a Celeste construiu suas melhores fotos: vitórias grandes (Brasil, Colômbia), goleadas controladas (Bolívia, Peru), e um 2 a 0 sobre a Venezuela que serviu como retorno de confiança. Fora, o Uruguai teve noites brilhantes (Argentina), mas também colecionou empates sem gols (Venezuela, Bolívia, Chile) e uma derrota dura em Assunção (2 a 0). Em resumo: como projeto de seleção, a base está de pé; como potência de campanha, o desafio é transformar viagens em vitórias.
Como jogam
O Uruguai desta campanha se descreve melhor por comportamento de placar do que por desenho tático. É uma seleção que vive confortável em jogos de margem curta: sofreu apenas 12 gols em 18 partidas, média baixa para a régua sul-americana. Esse dado não é decoração; ele define uma identidade. Quando a equipe não consegue ser exuberante, ainda assim consegue ser chata — no melhor sentido competitivo da palavra.
A prova está na frequência de “jogos fechados”. Foram muitos placares em que o adversário não marcou: Chile (3:1, mas sofreu um), Brasil (2:0), Argentina fora (0:2), Bolívia em casa (3:0), Paraguai em casa (0:0), Venezuela fora (0:0), Equador em casa (0:0), Bolívia fora (0:0), Venezuela em casa (2:0), Peru em casa (3:0), Chile fora (0:0). Mesmo sem contar um por um como estatística oficial, o padrão é visível: o Uruguai repetiu com frequência o “não deixar o outro jogar confortável”. E isso, em Copa do Mundo, costuma ser meio caminho andado para sobreviver ao grupo.
Mas a outra metade do caminho exige gol. E a campanha expõe a oscilação ofensiva com muita honestidade. Em 18 jogos, foram 22 gols: média próxima de 1,2 por partida. Só que essa média esconde extremos. Há jogos em que o Uruguai foi eficiente e incisivo — 3 a 1 no Chile, 3 a 0 na Bolívia, 3 a 2 na Colômbia, 3 a 0 no Peru. E há uma sequência de partidas em que o placar parecia uma parede branca: 0 a 0 contra Paraguai, Venezuela, Equador; 0 a 0 também contra Bolívia e Chile fora. Em cinco 0 a 0, você consegue construir uma reputação defensiva; também consegue perder a chance de “matar” a tabela.
Um traço que aparece pelo registro de autores dos gols é a presença recorrente de nomes que resolvem jogos grandes ou destravam partidas. Núñez aparece como figura central em vitórias-chave: marcou contra o Brasil (2:0, 17 de outubro de 2023), contra a Argentina em Buenos Aires (0:2, 16 de novembro de 2023) e fez três na vitória sobre a Bolívia em casa (3:0, 21 de novembro de 2023, contando dois gols e participação indireta no gol contra). De la Cruz também tem noite dupla no Chile (dois gols no 3:1) e marca contra o Brasil. Valverde aparece no 3:1 do Chile e no empate no Brasil (1:1). Ou seja: há uma espinha dorsal de jogadores que aparece nos jogos que “viram história” dentro da campanha.
Ao mesmo tempo, o Uruguai mostrou sinais de diversidade em momentos específicos: Aguirre marcou em jogos de impacto no Centenário (3:2 contra a Colômbia, 2:0 contra a Venezuela, 3:0 contra o Peru), De Arrascaeta entrou na planilha de forma direta no 2:0 sobre a Venezuela e no 3:0 contra o Peru, e Viñas fechou a conta contra o Peru. Isso importa porque seleção que depende de um único nome para marcar fica previsível; e o Uruguai, mesmo tendo um protagonista claro, conseguiu acender outros focos de gol em fases decisivas.
As vulnerabilidades, por sua vez, também são “numéricas” e fáceis de narrar. Quando o jogo se arrasta em igualdade e o adversário aguenta o primeiro bloco, o Uruguai pode entrar numa espiral de ansiedade: o 0 a 0 vira um risco, e um lance isolado decide contra — como no Peru 1 a 0 Uruguai (11 de outubro de 2024, gol aos 88’) e no Uruguai 0 a 1 Argentina (21 de março de 2025). Em jogos assim, o time não desmorona; ele só não encontra o gol que devolve o controle. Outro alerta é a derrota por 2 a 0 para o Paraguai (5 de junho de 2025): quando sai atrás, a Celeste não teve, naquele dia, a chave de virar o roteiro.
Em síntese, “como joga” o Uruguai nesta fotografia é: protege bem, aceita jogos duros, e cresce quando encontra primeiro o gol. A versão ideal é a que aparece contra Brasil e Argentina: intensidade, concentração e pragmatismo de elite. A versão que precisa ser polida é a dos empates sem gols: ali, a Celeste vira um time de contenção que, sem a estocada, deixa o adversário vivo demais.
O grupo no Mundial
O Mundial coloca o Uruguai no Grupo H, com uma agenda bem definida e, curiosamente, com um detalhe logístico que pode virar narrativa: dois jogos seguidos em Miami, no Hard Rock Stadium. Para uma seleção que construiu grande parte do seu melhor futebol de resultado em “território conhecido” como o Centenário, repetir estádio e cidade em duas rodadas pode ajudar a estabilizar rotina, recuperação e preparação. A Copa não se ganha no hotel, mas se perde com facilidade quando a logística vira distração.
Os adversários do grupo, pelo recorte dos três jogos, são Arábia Saudita, Cabo Verde e Espanha. São perfis diferentes de desafio, e isso exige que o Uruguai seja múltiplo: saber impor quando o roteiro pede imposição, e saber sofrer quando o jogo aperta. Pela própria campanha das Eliminatórias, a Celeste tem ferramentas para os dois cenários — mas vai precisar calibrar o termômetro do risco para não cair na armadilha do placar curto que não se resolve.
A ordem dos jogos também conta uma história. O Uruguai estreia contra a Arábia Saudita em 15 de junho de 2026. Estreia é sempre jogo de nervo: o time que se organiza melhor sem a bola costuma sair com vantagem. E, olhando para os 0 a 0 repetidos nas Eliminatórias, dá para dizer que o Uruguai tem casca para não se desmanchar na ansiedade do primeiro dia. O desafio é transformar “não sofrer” em “ganhar”, algo que a campanha mostrou ser mais fácil quando o ataque encontra o primeiro golpe.
Depois vem Cabo Verde, em 21 de junho de 2026, também em Miami. É o tipo de partida em que o Uruguai, pelo peso histórico e pela exigência interna, tende a ser cobrado para ser protagonista. E protagonismo, para esta Celeste, significa duas coisas concretas que os números das Eliminatórias sugerem: marcar antes e evitar que o jogo vire um 0 a 0 que convida o acaso. A vitória por 3 a 0 sobre a Bolívia e por 3 a 0 sobre o Peru em Montevidéu são exemplos de como a equipe, quando destrava, não costuma deixar o adversário respirar até o fim.
O fechamento do grupo é contra a Espanha, em 26 de junho de 2026, no Estádio Chivas, em Guadalajara. Aqui o roteiro muda: é jogo em que um empate pode ter valor estratégico, e onde cada erro custa mais caro. O Uruguai mostrou, contra Brasil e Argentina, que sabe jogar partidas de altíssima tensão. Mas também mostrou, em derrotas mínimas, que um único lance aos 68’ ou aos 88’ pode virar a Copa do Mundo do avesso. Contra um rival desse calibre, a Celeste precisa da melhor versão do seu “controle” — e, principalmente, de precisão nos momentos em que a bola passa pela área.
A tabela do grupo, em termos de agenda do Uruguai, fica assim:
| Data | Estádio | Cidade | Rival |
|---|---|---|---|
| 15 de junho de 2026 | Hard Rock Stadium | Miami | Arábia Saudita |
| 21 de junho de 2026 | Hard Rock Stadium | Miami | Cabo Verde |
| 26 de junho de 2026 | Estádio Chivas | Guadalajara | Espanha |
Partido a partido, com guion provável e um palpite em linguagem direta:
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Arábia Saudita vs Uruguai — 15 de junho de 2026 O jogo tende a ser de controle e paciência. Para o Uruguai, a chave é não transformar a estreia em partida “travada” demais: quando a Celeste ficou presa em 0 a 0 nas Eliminatórias, precisou de muito esforço para criar. A estreia pede foco defensivo, sim, mas também coragem para atacar sem se expor. Pronóstico: ganha Uruguai.
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Uruguai vs Cabo Verde — 21 de junho de 2026 Aqui a exigência é de imposição. O Uruguai terá de fazer o que fez em casa contra a Venezuela (2:0) e contra o Peru (3:0): gol relativamente cedo para abrir o mapa do jogo. Se ficar 0 a 0 por muito tempo, o adversário cresce e a ansiedade entra no campo. Pronóstico: ganha Uruguai.
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Uruguai vs Espanha — 26 de junho de 2026 Partida de detalhe, de ritmo alto e com tendência a ser decidida em momentos específicos. O Uruguai tem precedente emocional: venceu Brasil e Argentina em jogos que exigiam perfeição competitiva. Mas também tem o alerta: perdeu por 0 a 1 para a Argentina no Centenário, num jogo em que um golpe bastou. Contra a Espanha, a Celeste precisa ser precisa quando tiver a chance — e impecável para não conceder o golpe. Pronóstico: empate.
Claves de classificação para o Uruguai no Grupo H
- Transformar o controle defensivo em vantagem real: evitar que a estreia vire um 0 a 0 longo demais.
- Marcar primeiro no segundo jogo para não dar vida ao acaso: o histórico mostra que, quando faz 2+, a Celeste vence.
- Contra a Espanha, aceitar o jogo de margem curta, mas sem passividade: um único lance decide, como nas derrotas por 1 a 0 nas Eliminatórias.
- Usar a repetição de sede em Miami como estabilidade competitiva: rotina, recuperação e foco.
- Manter o nível de concentração de jogos grandes: foi assim que a Celeste derrubou Brasil e Argentina na campanha.
Opinião editorial
O Uruguai chega com uma virtude que não se compra e não se improvisa: ser uma equipe desconfortável. Sofrer 12 gols em 18 jogos de Eliminatórias não é detalhe estatístico; é um estilo de sobrevivência. Em Copa do Mundo, isso costuma separar quem fica pelo caminho de quem atravessa o grupo com o coração na boca, mas atravessa. A Celeste tem cara de time que não se entrega ao caos, e isso é uma moeda forte no torneio mais curto e cruel do calendário.
Mas a mesma campanha deixa um aviso escrito com tinta simples: empatar demais é um vício que cobra juros. Foram muitos 0 a 0 e alguns 1 a 0 contra, como se o time aceitasse um jogo sem gol como zona de conforto. O Uruguai não precisa virar seleção de goleada; precisa virar seleção de “um gol que basta”. Porque, quando esse gol não sai, o adversário sempre encontra um jeito de transformar o jogo em armadilha.
O fechamento desta crônica volta a um ponto concreto, quase didático: Peru 1 a 0 Uruguai, em 11 de outubro de 2024, gol aos 88’. É o retrato do que pode acontecer quando você controla sem morder. A Celeste tem estrutura para competir contra qualquer um, como provou em Buenos Aires e no Centenário contra o Brasil. A questão é psicológica e prática: não permitir que partidas “sob controle” virem partidas “sob risco” nos últimos minutos.
Se o Uruguai quiser que o Mundial seja mais do que um passeio de reputação, precisa resgatar a versão que decidiu jogos grandes — e aplicar essa fome também nos jogos em que o adversário não dá espaço. A Copa do Mundo premia quem é confiável e, ao mesmo tempo, oportunista. A Celeste já é confiável. Falta, com regularidade, ser a equipe que olha para o 0 a 0 e decide: basta.