Uruguai - Grupo H

La Celeste afia as garras e vai ao Mundial com a faca nos dentes

🇺🇾🔥 La Celeste afia as garras e vai ao Mundial com a faca nos dentes

Uma campanha de classificação com picos de impacto, um miolo de empates e um sprint final que recoloca o Uruguai no mapa do medo competitivo.

Introdução

O Uruguai tem um jeito particular de anunciar presença: não precisa fazer barulho o tempo todo, mas quando decide bater na porta, bate com o ombro. Há campanhas que se contam por números; a desta Celeste se conta por cenas. A bola que entra cedo e muda o humor do Centenário. O jogo grande em que o adversário olha para o banco e percebe que não vai ter trégua. E também aquela sequência em que o relógio anda, o placar não, e a seleção parece travada num empate que vira rotina.

A caminhada nas Eliminatórias sul-americanas foi uma narrativa de contrastes. Começa com a sensação de novidade e fome — o 3 a 1 sobre o Chile em Montevidéu (8 de setembro de 2023) e, principalmente, com a noite em que o Brasil saiu do Centenário sem resposta: 2 a 0 (17 de outubro de 2023), com gols e assinatura emocional. Na sequência, o roteiro ganhou um tom mais áspero, de rodagem e testes, onde cada centímetro custou caro: empates sem gols, derrotas mínimas e jogos que pareciam pedir uma faísca que nem sempre apareceu.

Quando se aterrissa nos dados, o retrato é objetivo: o Uruguai terminou em 4º lugar, com 28 pontos em 18 jogos, somando 7 vitórias, 7 empates e 4 derrotas. Fez 22 gols e sofreu 12, saldo +10. Há solidez, há competitividade, e há uma pista central: é uma seleção que, mesmo nos dias de pouco brilho, costuma manter o jogo sob controle defensivo. O problema é que controle sem profundidade vira empate; e empate, na maratona, vira uma pergunta incômoda.

Três momentos-bisagra ajudam a entender a campanha sem recorrer a mitos. O primeiro é a vitória sobre o Brasil em 17 de outubro de 2023 (2 a 0), um marco psicológico e de tabela. O segundo é o golpe cirúrgico em Buenos Aires: Argentina 0 x 2 Uruguai em 16 de novembro de 2023, com a Celeste mostrando que sabe jogar o “jogo do outro” sem perder o próprio pulso. O terceiro é o 3 a 2 sobre a Colômbia em 15 de novembro de 2024, uma partida que teve cara de montanha-russa e terminou com um gol no 90+11’, desses que não somam apenas pontos: somam crença.

Há também o lado B que explica o que ainda incomoda. Entre setembro e outubro de 2024, o Uruguai acumulou empates sem gols e uma derrota curta (Peru 1 a 0 em 11 de outubro de 2024), como se a seleção tivesse ficado presa numa versão mais econômica de si mesma: segura, sim, mas com pouco veneno. E, quando a fase final apertou, ainda houve um tropeço duro em Assunção (Paraguai 2 a 0, 5 de junho de 2025), imediatamente respondido com autoridade em Montevidéu contra a Venezuela (2 a 0, 10 de junho de 2025) e um 3 a 0 sobre o Peru (4 de setembro de 2025) que serviu como recomeço emocional.

O que fica, portanto, é uma Celeste com cara de torneio: sabe sofrer, sabe bater em gigante, e tem uma taxa de gols sofridos que sustenta qualquer ambição. Mas, para virar seleção de “mando” e não apenas de “jogo grande”, precisa transformar estabilidade em vantagem. A diferença, muitas vezes, é um gol — e o Uruguai viveu vários jogos onde esse gol não veio.

O caminho pelas Eliminatórias

As Eliminatórias da CONMEBOL são uma liga longa, de turno e returno, em que cada ponto vale como metal raro. O Uruguai encarou 18 partidas, alternando o Centenário como alavanca e viagens que, na América do Sul, são sempre provas físicas e mentais. O resultado final — 4º lugar com 28 pontos — diz que a classificação veio com margem competitiva, mas também revela um detalhe: houve um bloco inteiro de jogos em que a equipe não perdeu muito… e também não ganhou o suficiente.

A leitura da tabela ajuda a posicionar a campanha no mapa da região. O Uruguai fechou com 28 pontos, empatado em pontuação com Colômbia, Brasil e Paraguai, mas à frente por critérios de desempate e consistência do saldo. Ficou a 10 pontos da Argentina, líder com 38, e um ponto atrás do Equador, vice com 29. É uma fotografia de equilíbrio extremo: quatro seleções separadas por detalhes disputaram o “segundo pelotão” do topo, e o Uruguai saiu dele com credenciais defensivas (12 gols sofridos) e um ataque que alternou entre noites inspiradas e longos períodos de baixa produção.

Se a campanha tivesse um desenho em ondas, a primeira onda é de impacto. Logo na Jornada 1, 3 a 1 sobre o Chile em 8 de setembro de 2023, com dois gols de Nicolás de la Cruz e um de Valverde: a mensagem foi clara, de intensidade e volume. Na Jornada 4, o 2 a 0 sobre o Brasil (17 de outubro de 2023) fez o Centenário parecer menor de tão concentrado que ficou o jogo. E a Jornada 5, em Buenos Aires, foi um manifesto competitivo: Argentina 0 x 2 Uruguai (16 de novembro de 2023), um placar que raramente se desenha fora de casa sem um plano bem executado.

Depois vem a segunda onda, mais irregular, que mistura empates e jogos de margem mínima. A Jornada 7 e a Jornada 8 foram dois 0 a 0 seguidos (Paraguai em Montevidéu e Venezuela em Maturín), sinal de um time que controlava o risco, mas não convertia domínio em gol. Na Jornada 9, a derrota por 1 a 0 para o Peru em Lima (11 de outubro de 2024) doeu por ser o tipo de jogo em que um detalhe, um lance, uma desconcentração, vira sentença. E o 0 a 0 com o Equador em casa (15 de outubro de 2024) consolidou a sensação de “placar travado” naquele período.

A terceira onda traz de volta a pulsação. O 3 a 2 sobre a Colômbia em 15 de novembro de 2024 não foi apenas vitória: foi resistência emocional. Houve gol contra, virada, empate tardio do adversário no 90+6’, e resposta do Uruguai no 90+11’ com Ugarte. E, poucos dias depois, o 1 a 1 com o Brasil em Salvador (19 de novembro de 2024) reforçou a ideia de que, contra seleção grande, a Celeste costuma encontrar seu melhor tom.

O trecho final é de ajustes finos e um fechamento com autoridade em casa. Em março de 2025, veio uma derrota magra para a Argentina no Centenário (0 a 1, 21 de março de 2025), seguida de 0 a 0 em El Alto contra a Bolívia (25 de março de 2025), um empate que se lê como ponto “duro” fora. Em junho, a derrota em Assunção (Paraguai 2 a 0, 5 de junho de 2025) pareceu um alerta de limite: quando o jogo pede reação, nem sempre ela aparece. Mas a resposta veio em Montevidéu: 2 a 0 sobre a Venezuela (10 de junho de 2025) e, mais adiante, um 3 a 0 sobre o Peru (4 de setembro de 2025), com gols de Aguirre, De Arrascaeta e Viñas, como se a seleção fechasse a porta do debate com um trinco a mais.

Há um dado que atravessa toda a campanha e explica muito do “como”: o Uruguai acumulou 7 empates em 18 jogos, e vários deles foram 0 a 0. Isso pode ser lido como maturidade defensiva, mas também como dificuldade de transformar presença em gol — principalmente fora de casa, onde os 0 a 0 viraram um hábito (Venezuela, Bolívia e Chile, todos sem gols). Ao mesmo tempo, quando conseguiu marcar primeiro e acelerar, a Celeste foi convincente: 3 a 0 na Bolívia? Não: foi 3 a 0 contra a Bolívia em Montevidéu (21 de novembro de 2023). E 3 a 0 contra o Peru também em casa (4 de setembro de 2025). O padrão é claro: no Centenário, o Uruguai encontrou seu melhor futebol de resultado.

Abaixo, a campanha completa jogo a jogo, em formato de leitura rápida, com data, jornada, rival, condição, placar, Artilheiros e sede.

Tabela 1

Data Jornada Rival Condição Resultado Artilheiros Sede
8 de setembro de 2023 1 Chile Casa 3:1 N. de la Cruz 38', 71', Valverde 45+2'; Vidal 74' Estádio Centenario, Montevideo
12 de setembro de 2023 2 Equador Fora 2:1 Torres 45+5', 61'; Canobbio 38' Estádio Rodrigo Paz Delgado, Quito
12 de outubro de 2023 3 Colômbia Fora 2:2 Rodríguez 35', Uribe 52'; M. Olivera 47', Núñez 90+1' (pen.) Estádio Metropolitano, Barranquilla
17 de outubro de 2023 4 Brasil Casa 2:0 Núñez 42', N. de la Cruz 77' Estádio Centenario, Montevideo
16 de novembro de 2023 5 Argentina Fora 0:2 R. Araújo 41', Núñez 87' La Bombonera, Buenos Aires
21 de novembro de 2023 6 Bolívia Casa 3:0 Núñez 15', 71', Villamíl 39' (a.g.) Estádio Centenario, Montevideo
6 de setembro de 2024 7 Paraguai Casa 0:0 Estádio Centenario, Montevideo
10 de setembro de 2024 8 Venezuela Fora 0:0 Estádio Monumental, Maturín
11 de outubro de 2024 9 Peru Fora 1:0 Araujo 88' Estádio Nacional, Lima
15 de outubro de 2024 10 Equador Casa 0:0 Estádio Centenario, Montevideo
15 de novembro de 2024 11 Colômbia Casa 3:2 D. Sánchez 57' (a.g.), Aguirre 60', Ugarte 90+11'; Quintero 31', Gómez 90+6' Estádio Centenario, Montevideo
19 de novembro de 2024 12 Brasil Fora 1:1 Gerson 62'; Valverde 55' Arena Fonte Nova, Salvador
21 de março de 2025 13 Argentina Casa 0:1 Almada 68' Estádio Centenario, Montevideo
25 de março de 2025 14 Bolívia Fora 0:0 Estádio Municipal, El Alto
5 de junho de 2025 15 Paraguai Fora 2:0 Galarza 13', Enciso 81' (pen.) Estádio Defensores del Chaco, Asunción
10 de junho de 2025 16 Venezuela Casa 2:0 Aguirre 42', De Arrascaeta 47' Estádio Centenario, Montevideo
4 de setembro de 2025 17 Peru Casa 3:0 Aguirre 14', G. de Arrascaeta 56', Viñas 80' Estádio Centenario, Montevideo
9 de setembro de 2025 18 Chile Fora 0:0 Estádio Nacional, Santiago

Agora, a tabela de posições completa. Como o JSON traz uma única classificação geral da CONMEBOL, esta é a tabela relevante para contextualizar o 4º lugar do Uruguai.

Tabela de posições

Pos. Seleção Pts. PJ PG PE PP GF GC Dif.
1 Argentina 38 18 12 2 4 31 10 21
2 Equador 29 18 8 8 2 14 5 9
3 Colômbia 28 18 7 7 4 28 18 10
4 Uruguai 28 18 7 7 4 22 12 10
5 Brasil 28 18 8 4 6 24 17 7
6 Paraguai 28 18 7 7 4 14 10 4
7 Bolívia 20 18 6 2 10 17 35 -18
8 Venezuela 18 18 4 6 8 18 28 -10
9 Peru 12 18 2 6 10 6 21 -15
10 Chile 11 18 2 5 11 9 27 -18

Com a tabela na mão, dá para comparar o Uruguai sem fantasia. Em pontos, ficou no bloco do 3º ao 6º. Em saldo, empatou com a Colômbia (+10) e ficou acima de Brasil (+7) e Paraguai (+4). Em gols sofridos, 12 é número de time “difícil de furar” — só perde para a defesa do Equador (5) e para a Argentina (10). Já o ataque (22) é competitivo, mas não dominante dentro do pelotão: a Colômbia marcou 28 e a Argentina 31; o Brasil fez 24. Em outras palavras: o Uruguai foi mais “controle” do que “tempestade”.

Se segmentar a campanha pelo placar, aparecem dois mundos. Nos jogos em que marcou 2 ou mais gols, o Uruguai venceu: 3 a 1 no Chile, 2 a 0 no Brasil, 0 a 2 na Argentina, 3 a 0 na Bolívia, 3 a 2 na Colômbia, 2 a 0 na Venezuela, 3 a 0 no Peru. É um padrão limpíssimo: quando o ataque funciona, a defesa sustenta. O problema foi o outro conjunto: partidas de um gol ou zero gol. Houve derrotas por 1 a 0 (Peru e Argentina) e uma sequência de 0 a 0 que travou o ganho de pontos.

E a diferença entre casa e fora também salta. Em Montevidéu, a Celeste construiu suas melhores fotos: vitórias grandes (Brasil, Colômbia), goleadas controladas (Bolívia, Peru), e um 2 a 0 sobre a Venezuela que serviu como retorno de confiança. Fora, o Uruguai teve noites brilhantes (Argentina), mas também colecionou empates sem gols (Venezuela, Bolívia, Chile) e uma derrota dura em Assunção (2 a 0). Em resumo: como projeto de seleção, a base está de pé; como potência de campanha, o desafio é transformar viagens em vitórias.

Como jogam

O Uruguai desta campanha se descreve melhor por comportamento de placar do que por desenho tático. É uma seleção que vive confortável em jogos de margem curta: sofreu apenas 12 gols em 18 partidas, média baixa para a régua sul-americana. Esse dado não é decoração; ele define uma identidade. Quando a equipe não consegue ser exuberante, ainda assim consegue ser chata — no melhor sentido competitivo da palavra.

A prova está na frequência de “jogos fechados”. Foram muitos placares em que o adversário não marcou: Chile (3:1, mas sofreu um), Brasil (2:0), Argentina fora (0:2), Bolívia em casa (3:0), Paraguai em casa (0:0), Venezuela fora (0:0), Equador em casa (0:0), Bolívia fora (0:0), Venezuela em casa (2:0), Peru em casa (3:0), Chile fora (0:0). Mesmo sem contar um por um como estatística oficial, o padrão é visível: o Uruguai repetiu com frequência o “não deixar o outro jogar confortável”. E isso, em Copa do Mundo, costuma ser meio caminho andado para sobreviver ao grupo.

Mas a outra metade do caminho exige gol. E a campanha expõe a oscilação ofensiva com muita honestidade. Em 18 jogos, foram 22 gols: média próxima de 1,2 por partida. Só que essa média esconde extremos. Há jogos em que o Uruguai foi eficiente e incisivo — 3 a 1 no Chile, 3 a 0 na Bolívia, 3 a 2 na Colômbia, 3 a 0 no Peru. E há uma sequência de partidas em que o placar parecia uma parede branca: 0 a 0 contra Paraguai, Venezuela, Equador; 0 a 0 também contra Bolívia e Chile fora. Em cinco 0 a 0, você consegue construir uma reputação defensiva; também consegue perder a chance de “matar” a tabela.

Um traço que aparece pelo registro de autores dos gols é a presença recorrente de nomes que resolvem jogos grandes ou destravam partidas. Núñez aparece como figura central em vitórias-chave: marcou contra o Brasil (2:0, 17 de outubro de 2023), contra a Argentina em Buenos Aires (0:2, 16 de novembro de 2023) e fez três na vitória sobre a Bolívia em casa (3:0, 21 de novembro de 2023, contando dois gols e participação indireta no gol contra). De la Cruz também tem noite dupla no Chile (dois gols no 3:1) e marca contra o Brasil. Valverde aparece no 3:1 do Chile e no empate no Brasil (1:1). Ou seja: há uma espinha dorsal de jogadores que aparece nos jogos que “viram história” dentro da campanha.

Ao mesmo tempo, o Uruguai mostrou sinais de diversidade em momentos específicos: Aguirre marcou em jogos de impacto no Centenário (3:2 contra a Colômbia, 2:0 contra a Venezuela, 3:0 contra o Peru), De Arrascaeta entrou na planilha de forma direta no 2:0 sobre a Venezuela e no 3:0 contra o Peru, e Viñas fechou a conta contra o Peru. Isso importa porque seleção que depende de um único nome para marcar fica previsível; e o Uruguai, mesmo tendo um protagonista claro, conseguiu acender outros focos de gol em fases decisivas.

As vulnerabilidades, por sua vez, também são “numéricas” e fáceis de narrar. Quando o jogo se arrasta em igualdade e o adversário aguenta o primeiro bloco, o Uruguai pode entrar numa espiral de ansiedade: o 0 a 0 vira um risco, e um lance isolado decide contra — como no Peru 1 a 0 Uruguai (11 de outubro de 2024, gol aos 88’) e no Uruguai 0 a 1 Argentina (21 de março de 2025). Em jogos assim, o time não desmorona; ele só não encontra o gol que devolve o controle. Outro alerta é a derrota por 2 a 0 para o Paraguai (5 de junho de 2025): quando sai atrás, a Celeste não teve, naquele dia, a chave de virar o roteiro.

Em síntese, “como joga” o Uruguai nesta fotografia é: protege bem, aceita jogos duros, e cresce quando encontra primeiro o gol. A versão ideal é a que aparece contra Brasil e Argentina: intensidade, concentração e pragmatismo de elite. A versão que precisa ser polida é a dos empates sem gols: ali, a Celeste vira um time de contenção que, sem a estocada, deixa o adversário vivo demais.

O grupo no Mundial

O Mundial coloca o Uruguai no Grupo H, com uma agenda bem definida e, curiosamente, com um detalhe logístico que pode virar narrativa: dois jogos seguidos em Miami, no Hard Rock Stadium. Para uma seleção que construiu grande parte do seu melhor futebol de resultado em “território conhecido” como o Centenário, repetir estádio e cidade em duas rodadas pode ajudar a estabilizar rotina, recuperação e preparação. A Copa não se ganha no hotel, mas se perde com facilidade quando a logística vira distração.

Os adversários do grupo, pelo recorte dos três jogos, são Arábia Saudita, Cabo Verde e Espanha. São perfis diferentes de desafio, e isso exige que o Uruguai seja múltiplo: saber impor quando o roteiro pede imposição, e saber sofrer quando o jogo aperta. Pela própria campanha das Eliminatórias, a Celeste tem ferramentas para os dois cenários — mas vai precisar calibrar o termômetro do risco para não cair na armadilha do placar curto que não se resolve.

A ordem dos jogos também conta uma história. O Uruguai estreia contra a Arábia Saudita em 15 de junho de 2026. Estreia é sempre jogo de nervo: o time que se organiza melhor sem a bola costuma sair com vantagem. E, olhando para os 0 a 0 repetidos nas Eliminatórias, dá para dizer que o Uruguai tem casca para não se desmanchar na ansiedade do primeiro dia. O desafio é transformar “não sofrer” em “ganhar”, algo que a campanha mostrou ser mais fácil quando o ataque encontra o primeiro golpe.

Depois vem Cabo Verde, em 21 de junho de 2026, também em Miami. É o tipo de partida em que o Uruguai, pelo peso histórico e pela exigência interna, tende a ser cobrado para ser protagonista. E protagonismo, para esta Celeste, significa duas coisas concretas que os números das Eliminatórias sugerem: marcar antes e evitar que o jogo vire um 0 a 0 que convida o acaso. A vitória por 3 a 0 sobre a Bolívia e por 3 a 0 sobre o Peru em Montevidéu são exemplos de como a equipe, quando destrava, não costuma deixar o adversário respirar até o fim.

O fechamento do grupo é contra a Espanha, em 26 de junho de 2026, no Estádio Chivas, em Guadalajara. Aqui o roteiro muda: é jogo em que um empate pode ter valor estratégico, e onde cada erro custa mais caro. O Uruguai mostrou, contra Brasil e Argentina, que sabe jogar partidas de altíssima tensão. Mas também mostrou, em derrotas mínimas, que um único lance aos 68’ ou aos 88’ pode virar a Copa do Mundo do avesso. Contra um rival desse calibre, a Celeste precisa da melhor versão do seu “controle” — e, principalmente, de precisão nos momentos em que a bola passa pela área.

A tabela do grupo, em termos de agenda do Uruguai, fica assim:

Data Estádio Cidade Rival
15 de junho de 2026 Hard Rock Stadium Miami Arábia Saudita
21 de junho de 2026 Hard Rock Stadium Miami Cabo Verde
26 de junho de 2026 Estádio Chivas Guadalajara Espanha

Partido a partido, com guion provável e um palpite em linguagem direta:

  1. Arábia Saudita vs Uruguai — 15 de junho de 2026 O jogo tende a ser de controle e paciência. Para o Uruguai, a chave é não transformar a estreia em partida “travada” demais: quando a Celeste ficou presa em 0 a 0 nas Eliminatórias, precisou de muito esforço para criar. A estreia pede foco defensivo, sim, mas também coragem para atacar sem se expor. Pronóstico: ganha Uruguai.

  2. Uruguai vs Cabo Verde — 21 de junho de 2026 Aqui a exigência é de imposição. O Uruguai terá de fazer o que fez em casa contra a Venezuela (2:0) e contra o Peru (3:0): gol relativamente cedo para abrir o mapa do jogo. Se ficar 0 a 0 por muito tempo, o adversário cresce e a ansiedade entra no campo. Pronóstico: ganha Uruguai.

  3. Uruguai vs Espanha — 26 de junho de 2026 Partida de detalhe, de ritmo alto e com tendência a ser decidida em momentos específicos. O Uruguai tem precedente emocional: venceu Brasil e Argentina em jogos que exigiam perfeição competitiva. Mas também tem o alerta: perdeu por 0 a 1 para a Argentina no Centenário, num jogo em que um golpe bastou. Contra a Espanha, a Celeste precisa ser precisa quando tiver a chance — e impecável para não conceder o golpe. Pronóstico: empate.

Claves de classificação para o Uruguai no Grupo H

  • Transformar o controle defensivo em vantagem real: evitar que a estreia vire um 0 a 0 longo demais.
  • Marcar primeiro no segundo jogo para não dar vida ao acaso: o histórico mostra que, quando faz 2+, a Celeste vence.
  • Contra a Espanha, aceitar o jogo de margem curta, mas sem passividade: um único lance decide, como nas derrotas por 1 a 0 nas Eliminatórias.
  • Usar a repetição de sede em Miami como estabilidade competitiva: rotina, recuperação e foco.
  • Manter o nível de concentração de jogos grandes: foi assim que a Celeste derrubou Brasil e Argentina na campanha.

Opinião editorial

O Uruguai chega com uma virtude que não se compra e não se improvisa: ser uma equipe desconfortável. Sofrer 12 gols em 18 jogos de Eliminatórias não é detalhe estatístico; é um estilo de sobrevivência. Em Copa do Mundo, isso costuma separar quem fica pelo caminho de quem atravessa o grupo com o coração na boca, mas atravessa. A Celeste tem cara de time que não se entrega ao caos, e isso é uma moeda forte no torneio mais curto e cruel do calendário.

Mas a mesma campanha deixa um aviso escrito com tinta simples: empatar demais é um vício que cobra juros. Foram muitos 0 a 0 e alguns 1 a 0 contra, como se o time aceitasse um jogo sem gol como zona de conforto. O Uruguai não precisa virar seleção de goleada; precisa virar seleção de “um gol que basta”. Porque, quando esse gol não sai, o adversário sempre encontra um jeito de transformar o jogo em armadilha.

O fechamento desta crônica volta a um ponto concreto, quase didático: Peru 1 a 0 Uruguai, em 11 de outubro de 2024, gol aos 88’. É o retrato do que pode acontecer quando você controla sem morder. A Celeste tem estrutura para competir contra qualquer um, como provou em Buenos Aires e no Centenário contra o Brasil. A questão é psicológica e prática: não permitir que partidas “sob controle” virem partidas “sob risco” nos últimos minutos.

Se o Uruguai quiser que o Mundial seja mais do que um passeio de reputação, precisa resgatar a versão que decidiu jogos grandes — e aplicar essa fome também nos jogos em que o adversário não dá espaço. A Copa do Mundo premia quem é confiável e, ao mesmo tempo, oportunista. A Celeste já é confiável. Falta, com regularidade, ser a equipe que olha para o 0 a 0 e decide: basta.