Costa do Marfim - Grupo E
🇨🇮🐘 Costa do Marfim chega ao Mundial como quem fecha a porta sem deixar fresta
Uma campanha de eliminatórias com números de cofre, ataques cirúrgicos e uma fase de grupos que pede cabeça fria em três atos bem diferentes
Introdução
Há seleções que se classificam com barulho: reviravoltas, tropeços, resgates no apagar das luzes. E há as que fazem a coisa com a calma de quem conhece o caminho e coloca, jogo a jogo, o cadeado no próprio gol. A Costa do Marfim entrou nessa segunda prateleira. A sensação, olhando para o trajeto, é de um time que não precisou correr atrás do relógio: preferiu controlar a paisagem.
O roteiro começou com uma noite que parece de videogame e termina como manchete de capa. No Estádio Olímpico Ebimpé, em 17 de novembro de 2023, a Costa do Marfim abriu a campanha com um 9:0 sobre Seychelles. Foi exagero no placar, sim — mas também foi mensagem: intensidade alta, fome e uma distribuição de gols que espalhou confiança pelo elenco.
Depois, veio a etapa que costuma derrubar favoritos: vencer fora, vencer em campo neutro, vencer quando o jogo não “anda”. Em 20 de novembro de 2023, em Dar es-Salam, fez 2:0 na Gâmbia. Em 11 de junho de 2024, segurou um 0:0 no Quênia. Em 9 de setembro de 2025, outro 0:0, dessa vez no Gabão. Os Elefantes não transformaram todo jogo em espetáculo; transformaram quase todo jogo em ponto.
Os números, nessa campanha, contam uma história quase insolente de tão limpa: 1º lugar no Grupo F, 26 pontos em 10 partidas, com 8 vitórias e 2 empates, invicta. Marcou 25 gols e não sofreu nenhum: saldo de +25. Não é só uma boa campanha; é uma campanha que praticamente apaga o adversário do placar.
E houve momentos-bisagra que explicam a arquitetura do sucesso, para além do volume de gols. Em 7 de junho de 2024, o 1:0 sobre o Gabão foi daqueles jogos de faca curta: Fofana aos 36’ e controle do resto. Em 21 de março de 2025, o 1:0 sobre Burundi, com Guessand aos 16’, mostrou um time que sabe abrir o cadeado cedo e administrar. Já em 10 de outubro de 2025, o 7:0 em Seychelles foi a confirmação do que a tabela já desenhava: quando encontra espaço, a Costa do Marfim acelera sem pedir licença.
O caminho pelas Eliminatórias
O formato das Eliminatórias Africanas para a Copa do Mundo de 2026 foi desenhado para premiar regularidade em maratona: nove grupos de seis seleções, todos contra todos em ida e volta. Os nove líderes de grupo se classificam diretamente. Além disso, os quatro melhores segundos colocados entre os nove grupos disputam um playoff continental para definir o representante africano no torneio de repescagem intercontinental, que ainda pode render mais vaga. Para a Costa do Marfim, a conta foi direta: ganhar o grupo e evitar qualquer calculadora.
E ela ganhou. No Grupo F, a Costa do Marfim fechou com 26 pontos — um ponto acima do Gabão, que somou 25. Essa diferença mínima na pontuação contrasta com a diferença enorme na forma como o caminho foi pavimentado. O detalhe que separa uma campanha “ótima” de uma “implacável” está no zero da coluna de gols sofridos: GC 0 em 10 jogos. Em eliminatórias, isso costuma ser raro; em eliminatórias africanas, com viagens e condições variáveis, é raríssimo.
A leitura da tabela deixa claro o tamanho do aperto na parte alta: Costa do Marfim e Gabão caminharam colados. O Gabão também venceu oito vezes, mas tropeçou em uma derrota e sofreu 9 gols. Esse é o recorte decisivo: enquanto o vice-líder precisou lidar com jogos em que o adversário encontra uma brecha, a Costa do Marfim não deu nem a porta da esperança. E isso muda a dinâmica de um grupo: quando o líder não sofre, até vitórias mínimas viram patrimônio.
Atrás, a Gâmbia terminou com 13 pontos e um dado curioso: fez 27 gols, mais do que a própria Costa do Marfim (25). Só que sofreu 18. É a diferença entre ataque “solto” e equipe “organizada”. O Quênia (12 pontos) e Burundi (10) ficaram no meio do caminho, competitivos o bastante para travar jogos — como provaram os 0:0 e os 1:0 — mas sem constância para ameaçar a liderança. Seychelles, com 0 ponto, foi o saco de pancadas do grupo, sofrendo 53 gols.
A campanha marfinense teve duas camadas bem definidas. A primeira foi a do impacto: estrear com 9:0 e, em seguida, vencer fora por 2:0. A segunda foi a da gestão: vitórias curtas, empates sem risco e, quando o contexto permitia, goleadas que inflavam a confiança sem desorganizar a defesa. Esse equilíbrio, em eliminatórias, vale mais do que qualquer exibição isolada.
E há um aspecto de rendimento que salta aos olhos quando se organiza a sequência: a Costa do Marfim alternou jogos de domínio territorial (goleadas em casa) com jogos de domínio emocional (1:0 e 0:0 fora). Isso é seleção que entende competição: nem sempre dá para jogar bonito, mas sempre dá para competir no próprio roteiro.
Tabela 1 — Partidas da Costa do Marfim nas Eliminatórias CAF
| Data | Grupo | Jornada | Adversário | Condição | Resultado | Artilheiros | Estádio |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 17 de novembro de 2023 | F | 1 | Seychelles | Casa | 9:0 | Haller 20' (pen.), Sangaré 24', Adingra 36', Konaté 40', 90+5', S. Fofana 60', Traorè 77', 90+4', Krasso 84' (pen.) | Estádio Olímpico Ebimpé |
| 20 de novembro de 2023 | F | 2 | Gâmbia | Fora | 0:2 | Kouamé 45', S. Fofana 85' | Estádio Nacional (Dar es-Salam) |
| 7 de junho de 2024 | F | 3 | Gabão | Casa | 1:0 | Fofana 36' | Estádio Amadou Gon Coulibaly |
| 11 de junho de 2024 | F | 4 | Quênia | Fora | 0:0 | Estádio Nacional Bingu | |
| 21 de março de 2025 | F | 5 | Burundi | Fora | 0:1 | Guessand 16' | Stade d'Honneur (Mequinez) |
| 24 de março de 2025 | F | 6 | Gâmbia | Casa | 1:0 | Haller 15' | Estádio Houphouët-Boigny |
| 5 de setembro de 2025 | F | 7 | Burundi | Casa | 1:0 | Bayo 3' | Estádio Houphouët-Boigny |
| 9 de setembro de 2025 | F | 8 | Gabão | Fora | 0:0 | Stade de Franceville | |
| 10 de outubro de 2025 | F | 9 | Seychelles | Fora | 0:7 | Sangaré 7' (pen.), Agbadou 17', Diakité 32', Guessand 39', Diomande 55', Adingra 67', Kessié 90' | Côte d'Or National Sports Complex |
| 14 de outubro de 2025 | F | 10 | Quênia | Casa | 3:0 | Kessié 7', Diomande 54', Diallo 84' | Estádio Alassane Ouattara |
Tabela 2 — Tabela de posições do Grupo F
| Pos. | Seleção | Pts. | PJ | V | E | D | GF | GC | SG |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Costa do Marfim | 26 | 10 | 8 | 2 | 0 | 25 | 0 | +25 |
| 2 | Gabão | 25 | 10 | 8 | 1 | 1 | 22 | 9 | +13 |
| 3 | Gâmbia | 13 | 10 | 4 | 1 | 5 | 27 | 18 | +9 |
| 4 | Quênia | 12 | 10 | 3 | 3 | 4 | 18 | 14 | +4 |
| 5 | Burundi | 10 | 10 | 3 | 1 | 6 | 13 | 13 | 0 |
| 6 | Seychelles | 0 | 10 | 0 | 0 | 10 | 2 | 53 | −51 |
O retrato estatístico do caminho fica ainda mais interessante quando se separa mando e contexto. Em casa, foram 5 jogos, 4 vitórias e 1 empate, com 14 gols marcados e 0 sofrido. Fora, 5 jogos, 4 vitórias e 1 empate, com 11 gols marcados e 0 sofrido. Ou seja: não existe “Costa do Marfim caseira” e “Costa do Marfim vulnerável fora”. Existe uma seleção com padrão de segurança, que viaja sem perder o eixo.
Também chama atenção a proporção de placares curtos: quatro vitórias por 1:0 (Gabão, Burundi, Gâmbia e Burundi de novo) e dois empates por 0:0 (Quênia e Gabão). Em seis de dez partidas, a Costa do Marfim operou no território do detalhe. E venceu esse território. Isso é sinal de maturidade competitiva: não depende só do dia em que “entra tudo”.
E, no contraponto, quando o jogo abriu, ela não desperdiçou. Foram três goleadas que funcionaram como impulso e como recado: 9:0 e 3:0 em casa, 7:0 fora. A equipe provou que consegue sobreviver ao jogo amarrado e dominar o jogo aberto — combinação que, em Copa do Mundo, costuma separar quem faz fase de grupos “na conta” de quem faz com margem.
Cómo joga
A identidade da Costa do Marfim, olhando apenas os resultados e os padrões numéricos, começa pelo mais óbvio e, por isso mesmo, mais importante: é uma seleção que se sente confortável sem sofrer. Dez jogos, zero gol contra. Isso fala de comportamento coletivo, de concentração e de capacidade de não se desorganizar quando está ganhando por pouco. Em eliminatórias, é comum ver a equipe relaxar depois do 1:0; aqui, o 1:0 parece ter virado um território natural.
O ataque, por sua vez, mistura volume e pragmatismo. Os 25 gols em 10 partidas dão média de 2,5 por jogo, mas essa média está “puxada” pelos dias de avalanche. O dado que define melhor o estilo é a coexistência: a mesma equipe que fez 9:0 e 7:0 também venceu quatro vezes por 1:0 e empatou duas por 0:0. Isso sugere um time que não se desespera quando a bola não entra cedo — e que, quando entra, sabe transformar o adversário em refém do placar.
O ritmo dos jogos também aponta para um traço de seleção grande: gol cedo para controlar. Há exemplos diretos: Bayo fez aos 3’ contra Burundi (5 de setembro de 2025); Kessié aos 7’ contra Quênia (14 de outubro de 2025); Sangaré de pênalti aos 7’ contra Seychelles (10 de outubro de 2025); Haller aos 15’ contra a Gâmbia (24 de março de 2025); Guessand aos 16’ contra Burundi (21 de março de 2025). São partidas em que o primeiro golpe veio no primeiro quarto de hora e, a partir dali, o jogo fica com cara marfinense: menos caos, mais administração.
O repertório de artilharia também ajuda a explicar por que o time não depende de uma única noite inspirada. A lista de autores é espalhada: Haller aparece com gols importantes e também com pênalti; S. Fofana decide em dois jogos (incluindo vitória fora) e marca no 9:0; Sangaré marca e abre goleada; Adingra, Guessand, Bayo, Kessié, Diomande, Diallo, Agbadou, Diakité, Konaté, Traorè e Krasso também deixam a assinatura. Em termos de rendimento, isso é oxigênio: se um nome estiver travado, existe outro caminho para o gol.
As vulnerabilidades, quando se lê o percurso com lupa, não aparecem na defesa — aparecem no risco de o jogo ficar preso. Os empates por 0:0 contra Quênia e Gabão mostram que, diante de adversários capazes de fechar espaços e aceitar o jogo sem bola, a Costa do Marfim pode precisar de paciência extra para achar a primeira brecha. Não é um problema; é uma zona de atenção. Em Copa do Mundo, esses jogos existem: o adversário não precisa atacar para te complicar, basta não te dar transição.
Outro ponto: o time parece gostar de jogar com o placar a favor, e isso é natural. As vitórias magras sugerem que a equipe não se atira ao segundo gol a qualquer custo. Isso pode ser virtude (controle) e pode ser armadilha (um erro muda o roteiro). A Costa do Marfim passou as eliminatórias sem pagar por essa escolha; em torneio curto, a régua sobe. O lado bom é que o histórico do ciclo prova que ela sabe manter a cabeça no 1:0 como se estivesse no 3:0.
O grupo no Mundial
O Grupo E coloca a Costa do Marfim em três partidas com personalidades bem diferentes. A estreia é contra o Equador, em Houston; depois, um duelo com a Alemanha, em Toronto; e por fim, um jogo contra Curaçao, na Filadélfia. Três cidades, três climas competitivos, três partidas que pedem leituras distintas — e, sobretudo, um mesmo ponto em comum: a Costa do Marfim não pode perder o que virou sua marca registrada nas eliminatórias, o controle emocional do placar curto.
Há um detalhe importante no desenho do grupo: a seleção marfinense chega com um histórico recente de jogos “de margem mínima” muito bem administrados. Isso tende a ser valioso especialmente na estreia, quando a Copa ainda é uma mistura de nervos e cuidado excessivo. Um time que ganhou quatro vezes por 1:0 e empatou duas por 0:0 sem sofrer gol tem ferramentas mentais para estrear sem cair na ansiedade.
O primeiro jogo, contra o Equador, tem cara de partida de “abertura prática”: medir forças, não se expor cedo, tentar marcar primeiro e transformar o resto do jogo em território conhecido. Para a Costa do Marfim, a chave é tornar a estreia semelhante ao que fez contra Gabão (7 de junho de 2024) ou contra Gâmbia (24 de março de 2025): jogo de detalhe, com capacidade de bater e fechar.
O segundo jogo, contra a Alemanha, é aquele que muda o termômetro do grupo. Independentemente do andamento da tabela, é partida em que qualquer erro de concentração costuma custar caro. Para a Costa do Marfim, o caminho realista passa por manter o jogo vivo o máximo possível, não oferecer “gols baratos” e tentar repetir sua virtude mais sustentável: zero concessão. Se a defesa que saiu ilesa de 10 jogos conseguir segurar o início, a partida cresce em confiança e pode virar um duelo de paciência.
O terceiro jogo, contra Curaçao, fecha o grupo com cara de decisão de pontos. Em Copa, a última rodada muitas vezes vira cálculo, mas há um recado simples para a Costa do Marfim: é jogo para impor condições. Se a seleção conseguir um gol cedo — como fez várias vezes no ciclo —, ela tem histórico para administrar sem desespero. Se não conseguir, precisa evitar o risco de transformar o jogo num 0:0 “de mãos atadas”. O ciclo mostrou que empatar sem sofrer é possível; o Mundial exige que, às vezes, empatar não basta.
Tabela — Jogos da Costa do Marfim no Grupo E
| Data | Estádio | Cidade | Rival |
|---|---|---|---|
| 14 de junho de 2026 | NRG Stadium | Houston | Equador |
| 20 de junho de 2026 | BMO Field | Toronto | Alemanha |
| 25 de junho de 2026 | Lincoln Financial Field | Filadélfia | Curaçao |
Agora, o exercício de prognóstico precisa ser direto e sem maquiagem, respeitando o que os números do ciclo permitem sugerir. Jogo 1: tendência de placar curto; se a Costa do Marfim abrir o marcador, seu histórico recente diz que ela sabe fechar a porta. Prognóstico: empate. Jogo 2: o desafio de maior exigência do grupo; a margem de erro cai e a partida pode escapar em detalhes. Prognóstico: ganha Alemanha. Jogo 3: cenário para a Costa do Marfim tentar ser dona do roteiro desde o início, com controle e sem se expor. Prognóstico: ganha Costa do Marfim.
Para fechar a fase de grupos com chance real de avançar, as chaves marfinenses são bem concretas:
- Marcar primeiro em pelo menos um dos dois primeiros jogos para trazer o grupo para o seu terreno de controle.
- Transformar o 1:0 em aliado, não em ansiedade: o ciclo provou que administrar vantagem é força.
- Evitar o jogo “longo” sem placar: os 0:0 existem no histórico e são úteis, mas podem não ser suficientes.
- Manter a disciplina do zero na defesa como prioridade de identidade: é o ativo mais raro que a seleção carrega.
Opinião editorial
A Costa do Marfim não se classificou: ela se impôs. E não foi com um discurso romântico sobre “alma” e “superação”, mas com um argumento que o futebol respeita sem discussão: 10 jogos, 0 gol sofrido. Esse número não é enfeite estatístico; é uma forma de jogar competição. Quem chega a um Mundial com essa blindagem não precisa pedir licença para sonhar com mata-mata — precisa apenas não se trair no primeiro susto.
O risco, justamente por isso, é mental: acreditar que o roteiro vai obedecer ao mesmo manual de eliminatórias. A Copa não perdoa o jogo em que a bola teima, o gramado não ajuda, o adversário não cede e o relógio vira inimigo. O alerta é simples e tem data marcada no próprio caminho: a Costa do Marfim venceu o Burundi por 1:0 em 21 de março de 2025 e venceu o mesmo Burundi por 1:0 em 5 de setembro de 2025. Foram vitórias certas, mas sempre na corda do detalhe. Em Copa, esse detalhe pode ser um desvio mínimo, um rebote, uma bola parada. Se o time entender que o seu “poder” não está em atropelar, mas em manter o jogo sob controle mesmo quando não brilha, aí sim o elefante anda — e quem tenta parar é que sente o peso.