Egito - Grupo G

🏟️ Egito, o punho fechado e o coração frio

🇪🇬🏟️ Egito, o punho fechado e o coração frio

Uma campanha quase sem rachaduras nas Eliminatórias e um Mundial que pede nervos de aço, não fogos de artifício

Introdução

Há seleções que chegam a um Mundial com cara de história escrita a lápis: uma sequência de jogos em que cada linha parece sujeita a borracha, cada resultado pendurado num detalhe, cada viagem uma armadilha. O Egito, desta vez, fez o caminho inverso. Caminhou como quem conhece o corredor, acendeu as luzes e foi embora antes de virar madrugada. Sem pressa, sem alarde, com a seriedade de quem trata as Eliminatórias como trabalho — e não como aventura.

O roteiro tem imagens fáceis de lembrar: o Cairo como porto seguro, a camisa vermelha como pano de fundo e um ataque que, quando encaixa, vira martelo. Mas o detalhe mais valioso não é estético. É numérico. Em dez partidas, o Egito terminou invicto, com 26 pontos, 20 gols marcados e apenas 2 sofridos. Isso não é só superioridade: é controle. É a campanha de quem raramente precisa correr atrás do placar — e, quando precisa, sabe administrar o relógio.

O Grupo A das Eliminatórias africanas não foi um passeio turístico, mas teve ares de missão cumprida desde cedo. A tabela final mostra o Egito no topo com folga, à frente de Burkina Faso (21 pontos) e com um colchão que permitiu atravessar o calendário sem paranoia. Ainda assim, não dá para contar essa trajetória como uma linha reta sem curvas: algumas partidas foram bisagra, aquelas que mudam o humor do vestiário e o tom do discurso.

A primeira dessas chaves aconteceu em 16 de novembro de 2023: Egito 6–0 Djibuti, no Estádio Internacional do Cairo. Um placar que não deixa discussão e que define a narrativa inicial — a de uma seleção com potência para esmagar os mais frágeis, com destaque para Salah, autor de quatro gols naquela noite, dois deles de pênalti. A segunda veio em 10 de junho de 2024, longe de casa: Guiné-Bissau 1–1 Egito, em Bisau. Ali, a campanha ganhou um aviso: fora do Cairo, o Egito pode ser arrastado para jogos de fricção, em que o placar não se abre com facilidade. A terceira, mais silenciosa e talvez mais reveladora, foi em 9 de setembro de 2025: Burkina Faso 0–0 Egito, em Uagadugu. Um 0–0 que, para muitos, parece empate morno; para uma seleção com ambição, pode ser aula de sobrevivência.

Entre goleadas e vitórias curtas, o Egito construiu uma identidade de resultados: o time que não se expõe, que sabe vencer por 1–0 sem pedir desculpas e que, quando encontra espaço, acelera com autoridade. O que vem a seguir é a parte mais delicada: transformar consistência de Eliminatórias em competitividade de Copa. Porque o Mundial não premia campanha bonita no papel — ele exige jogo por jogo, punho fechado e coração frio.

O caminho pelas Eliminatórias

O Egito atravessou o Grupo A como líder incontestável: 10 jogos, 8 vitórias, 2 empates, 0 derrotas. A matemática é limpa, sem ruído: 26 pontos e uma diferença de gols de +18 (20 a favor, 2 contra). O número mais barulhento, paradoxalmente, é o mais silencioso: só 2 gols sofridos em dez partidas. Em Eliminatórias, isso costuma ser sinônimo de duas coisas: organização para defender e capacidade de evitar jogos caóticos.

A leitura da tabela também ajuda a dar contexto ao tamanho do feito. Burkina Faso terminou com 21 pontos e um ataque ainda mais volumoso (23 gols), mas com o dobro de gols sofridos em relação ao Egito (8). Ou seja: Burkina fez mais gols, mas o Egito foi mais equilibrado — e equilíbrio em competição curta é moeda forte. Atrás, Serra Leoa (15) e Guiné-Bissau (10) desenham o retrato de um grupo em que havia disputa pelo meio, mas não houve espaço real para brigar pelo topo com o líder.

O caminho egípcio tem uma característica curiosa: ele alterna vitórias largas e vitórias mínimas com naturalidade, como se fossem ferramentas do mesmo kit. Começou com espetáculo e continuou com pragmatismo: 6–0 em Djibuti no Cairo, depois 2–0 fora contra Serra Leoa em 19 de novembro de 2023. Não é apenas somar pontos: é mostrar repertório cedo, algo que costuma estabilizar o ambiente interno e reduzir a ansiedade do “precisamos vencer”.

O primeiro sinal de alerta — e alerta não significa crise — veio em junho de 2024. Em 6 de junho, Egito 2–1 Burkina Faso no Cairo: dois gols rápidos de Trézéguet (3 e 7 minutos) e uma gestão posterior que permitiu apenas um desconto aos 56. Quatro dias depois, o 1–1 contra a Guiné-Bissau fora: placar curto, gol sofrido ainda no primeiro tempo, Salah empatando aos 70. Esse é o tipo de jogo que muda a conversa sobre um time. Porque não é mais “o Egito ganha de qualquer jeito”; passa a ser “o Egito precisa ter paciência quando o jogo não abre”.

Em março de 2025, o Egito retomou o roteiro de controle com duas vitórias que dizem muito sobre consistência. No dia 21, Etiópia 0–2 Egito, em Casablanca: Salah e Zizo construindo o placar ainda no primeiro tempo. No dia 25, Egito 1–0 Serra Leoa no Cairo, gol de Zizo nos acréscimos do primeiro tempo (45+2). É uma sequência que mostra duas faces úteis: capacidade de marcar fora e capacidade de vencer jogo travado em casa.

Setembro e outubro de 2025 foram o carimbo final. Egito 2–0 Etiópia no Cairo em 5 de setembro, com dois pênaltis convertidos (Salah e Marmoush, ambos no fim do primeiro tempo). Depois, o 0–0 com Burkina Faso fora em 9 de setembro — um empate que, lido friamente, reforça a blindagem defensiva. Em outubro, fechou com Djibuti 0–3 Egito em Casablanca e Egito 1–0 Guiné-Bissau no Cairo. O Egito terminou a campanha como começou: impondo diferença quando o jogo permitia e vencendo curto quando o jogo pedia faca entre os dentes.

Tabela 1: Partidas do Egito nas Eliminatórias CAF

Data Grupo Jornada Adversário Condição Resultado Artilheiros Sede
16 de novembro de 2023 A 1 Djibuti Mandante Egito 6–0 Djibuti Salah (17', 22' pen., 48', 69'), Mohamed (73'), Trézéguet (89') Estádio Internacional, Cairo
19 de novembro de 2023 A 2 Serra Leoa Visitante Serra Leoa 0–2 Egito Trézéguet (18', 62') Complexo Esportivo Samuel Kanyon Doe, Paynesville
6 de junho de 2024 A 3 Burkina Faso Mandante Egito 2–1 Burkina Faso Trézéguet (3', 7'); L. Traoré (56') Estádio Internacional, Cairo
10 de junho de 2024 A 4 Guiné-Bissau Visitante Guiné-Bissau 1–1 Egito Mama Baldé (42'); Salah (70') Estádio 24 de Setembro, Bisau
21 de março de 2025 A 5 Etiópia Visitante Etiópia 0–2 Egito Salah (31'), Zizo (40') Estádio Larbi Zaouli, Casablanca
25 de março de 2025 A 6 Serra Leoa Mandante Egito 1–0 Serra Leoa Zizo (45+2') Estádio Internacional, Cairo
5 de setembro de 2025 A 7 Etiópia Mandante Egito 2–0 Etiópia Salah (41' pen.), Marmoush (45+2' pen.) Estádio Internacional, Cairo
9 de setembro de 2025 A 8 Burkina Faso Visitante Burkina Faso 0–0 Egito Estádio 4 de Agosto, Uagadugu
8 de outubro de 2025 A 9 Djibuti Visitante Djibuti 0–3 Egito Adel (8'), Salah (14', 84') Estádio Larbi Zaouli, Casablanca
12 de outubro de 2025 A 10 Guiné-Bissau Mandante Egito 1–0 Guiné-Bissau Hamdy (10') Estádio Internacional, Cairo

Tabela 2: Tabela de posições

Grupo Pos. Equipe Pts. PJ G E P GF GC Dif.
A 1 Egito 26 10 8 2 0 20 2 +18
A 2 Burkina Faso 21 10 6 3 1 23 8 +15
A 3 Serra Leoa 15 10 4 3 3 12 10 +2
A 4 Guiné-Bissau 10 10 2 4 4 8 10 −2
A 5 Etiópia 9 10 2 3 5 9 14 −5
A 6 Djibuti 1 10 0 1 9 5 33 −28

Agora, a segmentação que ajuda a entender o “como” por trás dos pontos. Em casa, o Egito jogou cinco vezes: venceu as cinco. Marcou 12 gols e sofreu 1. Fora, fez cinco jogos: venceu três e empatou dois, com 8 gols marcados e 1 sofrido. É uma campanha com cara de maturidade: o Cairo como alavanca de vitória e, fora dele, um time que sabe pontuar sem se desorganizar.

Também chama atenção a quantidade de jogos de placar curto. Foram quatro vitórias por 1–0 (Serra Leoa em 25/03/2025, Guiné-Bissau em 12/10/2025, e outras vitórias mínimas aparecem na linha do controle mesmo quando o placar poderia crescer) e um empate 0–0 (Burkina Faso fora). Ao mesmo tempo, houve partidas em que o Egito apertou o gatilho e não olhou para trás: 6–0 em Djibuti e 3–0 fora contra Djibuti. O resumo é simples: não depende de um único tipo de jogo para vencer.

Por fim, o Egito teve momentos de “gols cedo” que mudaram a história das partidas. Contra Burkina Faso em 6/06/2024, dois gols até os 7 minutos. Contra a Guiné-Bissau em 12/10/2025, gol aos 10. Esse padrão costuma indicar um time que entra ligado e que, quando encontra o primeiro golpe, transforma o resto do jogo numa administração de vantagem.

Como jogam

O Egito desta campanha é o retrato de uma equipe que joga com o placar na cabeça — e isso não é crítica, é elogio ao entendimento competitivo. Os números sustentam essa leitura: 20 gols feitos em 10 jogos (média de 2 por partida) e apenas 2 sofridos (0,2 por partida). Esse desequilíbrio, especialmente do lado defensivo, aponta para uma prioridade clara: reduzir risco, evitar trocas de golpes, obrigar o adversário a ser perfeito por 90 minutos.

O comportamento dos resultados sugere uma equipe confortável em partidas de controle. Quatro jogos terminaram em 1–0 ou 0–0 (vitórias por 1–0 contra Serra Leoa e Guiné-Bissau, e o 0–0 com Burkina Faso), e até o 2–0 aparece como um placar recorrente: 2–0 fora contra Serra Leoa, 2–0 fora contra Etiópia, 2–0 em casa contra Etiópia. Isso desenha um padrão de eficiência: marcar primeiro, manter o jogo sob tampa, e permitir pouco.

Ao mesmo tempo, quando o adversário não oferece resistência estrutural, o Egito acelera e transforma a partida em goleada. O 6–0 sobre Djibuti no Cairo e o 3–0 fora são duas placas grandes na estrada, e ambos têm um detalhe: Salah aparece como figura de impacto direto, com gols em volume e em momentos que liquidam qualquer dúvida. O Egito não precisou “sobreviver” nesses jogos; ele os dominou.

A distribuição dos gols também oferece pistas. Salah e Trézéguet aparecem repetidamente como autores decisivos: Salah marca quatro contra Djibuti no primeiro jogo, faz o gol do empate contra Guiné-Bissau e volta a aparecer com dois contra Djibuti fora; Trézéguet decide fora contra Serra Leoa com dois gols e abre caminho contra Burkina Faso com dois gols em sequência. Zizo surge como fator importante em jogos de margem curta e em momentos-chave: faz o 2–0 fora contra Etiópia, decide com 1–0 contra Serra Leoa e aparece novamente como marcador. Marmoush entra na lista numa partida de pênaltis convertidos, reforçando que o Egito tem mais de um nome para transformar superioridade em gol.

As vulnerabilidades, quando aparecem, são mais de cenário do que de colapso. O Egito empatou duas vezes: 1–1 fora contra Guiné-Bissau e 0–0 fora contra Burkina Faso. Em ambos os casos, o ponto em comum é o contexto fora de casa e o placar que não se abre cedo. O adversário que consegue segurar o Egito longe do Cairo e impedir o primeiro golpe tende a empurrar o jogo para uma zona de paciência e detalhes — onde qualquer bola parada, qualquer erro, qualquer pênalti pode virar a história. E esse é justamente o terreno em que a Copa costuma morar.

O grupo no Mundial

O Mundial coloca o Egito no Grupo G, com uma agenda clara e um recorte geográfico interessante: dois jogos em Seattle e um em Vancouver. Não é um detalhe cosmético. Em competição curta, logística e ambientação pesam na rotina, no ritmo de recuperação e até no tipo de jogo que se instala. Para uma seleção que se acostumou a fazer do Cairo um santuário de controle, jogar em sequência fora do seu habitat exige adaptação mental.

Os adversários do grupo, pelos jogos listados, são Bélgica, Nova Zelândia e Irã. Três estilos potenciais, três tipos de partida, e um ponto em comum: o Egito dificilmente terá “jogo de treinamento”. A chave, então, não é prometer espetáculo; é entender onde o Egito já provou ser forte: placares curtos, disciplina para sofrer pouco, e capacidade de punir quando encontra um momento.

Tabela: Jogos do Egito no Grupo G

Data Estádio Cidade Rival
15 de junho de 2026 Lumen Field Seattle Bélgica
21 de junho de 2026 Estádio BC Place Vancouver Nova Zelândia
26 de junho de 2026 Lumen Field Seattle Irã

O jogo de abertura, em 15 de junho de 2026, é contra a Bélgica no Lumen Field. Para o Egito, a palavra-chave aqui é “entrada no torneio”. Uma seleção que sofreu só 2 gols em 10 jogos de Eliminatórias tende a levar para a Copa uma convicção: não se entregar ao caos. O roteiro mais plausível é um jogo de margem curta, com o Egito tentando manter o placar vivo até o fim. Prognóstico: empate.

Na segunda rodada, em 21 de junho de 2026, vem a Nova Zelândia em Vancouver. Este é o tipo de partida que o Egito precisa tratar como obrigação competitiva: não por soberba, mas por lógica de grupo. É o jogo em que o Egito deve tentar impor o que fez tantas vezes nas Eliminatórias: marcar primeiro e reduzir o resto a uma gestão de risco. Se conseguir transformar o domínio em gol cedo, o 2–0 vira placar natural dentro do seu histórico recente. Prognóstico: ganha o Egito.

A terceira rodada, em 26 de junho de 2026, fecha contra o Irã, novamente no Lumen Field. Dependendo da matemática do grupo, pode ser jogo de classificação direta ou de sobrevivência. E é exatamente aí que o Egito mostrou um traço valioso: sabe vencer de 1–0 sem se desesperar e sabe empatar fora quando o jogo fica travado. Contra um adversário que tende a tornar o jogo mais tenso, o Egito precisa evitar o erro que não cometeu nas Eliminatórias: dar presente defensivo. Prognóstico: empate.

O detalhe é que, na Copa, empates podem ser ouro ou areia, dependendo de como o grupo se desenha. Para o Egito, a estratégia emocional é clara: não transformar o primeiro jogo em sentença e não transformar o segundo em ansiedade. O time tem números para acreditar que consegue manter partidas em trilhos.

Chaves para a classificação do Egito no Grupo G

  • Manter o padrão defensivo que sustentou a campanha: sofrer pouco e evitar jogos de trocação.
  • Buscar o primeiro gol com urgência controlada, especialmente no segundo jogo, para poder jogar no seu território de placar.
  • Valorizar bolas paradas e momentos de transição, já que muitos jogos do Egito se decidem por detalhes de margem curta.
  • Gerir energia e disciplina: uma seleção de poucos gols sofridos costuma viver de concentração contínua.

Opinião editorial

O Egito chega com uma credencial que vale mais do que qualquer adjetivo: previsibilidade competitiva. Você sabe o que vai encontrar quando a bola rolar: um time que aceita ganhar por pouco, que não se ofende com o 1–0, e que parece confortável em dizer “o jogo vai ser do meu jeito”. Em Copa, isso costuma ser metade do caminho — a outra metade é transformar controle em pontos quando a partida fica amarrada.

Mas existe uma linha fina entre maturidade e economia excessiva. O empate em 10 de junho de 2024, Guiné-Bissau 1–1 Egito, deixa um lembrete: quando o gol não vem cedo, a seleção precisa de paciência sem passividade. Se o Egito levar para o Mundial a mesma serenidade e, ao mesmo tempo, encontrar meios de não depender de um único momento de Salah ou de uma bola parada, ele vira um visitante incômodo para qualquer grupo. Se, por outro lado, aceitar partidas “mansas” demais, corre o risco de descobrir tarde que a Copa cobra juros.

O fechamento dessa história não pede grandiloquência; pede precisão. O Egito fez uma campanha de líder com números de elite: invicto, 20–2 em gols, cinco vitórias em cinco jogos no Cairo, e uma capacidade real de pontuar fora sem se desorganizar. A advertência concreta está escrita no jogo mais silencioso: Burkina Faso 0–0 Egito, em 9 de setembro de 2025. A Copa adora partidas assim — travadas, sem espaço, resolvidas num detalhe. Se o Egito conseguir transformar “não sofrer” em “saber quando matar”, a camisa vermelha não entra em campo só para participar: entra para incomodar.